23/02/2016 às 09h27m


Amores

Ontem ouvi algo sobre "amores modernos". Que seriam eles? Amores não seriam sempre amores? Sem importar a década, a idade, o gênero?  
Não sei defini-los, mas arrisco a dizer que sei o que são. 
E o que não são. E como importo que sejam para mim. 
Amores mornos, que se perdem na mesmice de dia e horas marcados, certos de que são sólidos porque vivem de agenda com rotina precisa, não me interessam. 
Os amores que se mantêm de pé porque se seguram na lembrança do que viveram e na esperança do que voltarão a viver, não me convencem. 
Amores são talhados no presente, nas imprevisibilidades do que precisa ser conquistado dia a dia. Amores seguros de si tornam-se desinteressantes. 
Amores que não te fazem contrair e expandir são entediantes. 
Uns não abrem mão de ter um relacionamento, outros não abrem mão do amor. Uma coisa é diferente da outra, ainda que por vezes andem juntas. 
Amores previsíveis se esvaziam e a gente murcha por dentro. 
Mas discordo terminantemente de brincar de amor. Se brincar, deixou de ser amor. 
Amor é para brincar, mas não é brinquedo. Amor é coisa séria ainda que seja essencial que nos faça rir. 
Li nessa mesma entrevista que "A verdadeira fusão não é a de duas pessoas que se amam – é a de duas pessoas que se exploram." 
Exato. 
Se você chega a um ponto de saber tudo, de não ser surpreendido mais, de não ter caminhos a descobrir no outro. Para que ficar?
Amores precisam ter o poder de desconcertar. De deixar sem jeito, sem saber para onde olhar. De não ter a certeza de nada, a não ser da reciprocidade do sentimento. E para valer, é preciso que seja assim para sempre. Ainda que o para sempre, possa acabar.
Amores não podem ser úteis, não podem tornar-se um costume, não podem existir para dizer que temos um. Amores não devem fazer sentido. Só devem ser sentidos.
Devem ser aquela prioridade boa dentro do dia a dia corrido e, ainda que impossível de ser vivido, sempre precisa ser valorizado como os amores são. De outro modo, não são.
Como lindamente escreveu um novo autor  português de quem me esqueci o nome:
"Eu quero explorar-te toda. Eu exijo explorar-te toda. E sem sequer direito a indemnização ou discussão. Explorar-te toda. E exijo – Deus te livre de não o fazeres – ser explorado todo. Não deixes nada por tocar, nada por sentir, nada por escravizar. Não deixes nada por viver: nada por me viver. Faz de mim o teu tudo. É isso que te ordeno. Faz de mim o teu tudo. E é tudo."


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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11/02/2016 às 16h37m - Atualizado 11/02/2016 às 17h56m


Crédito e débito no amor

Você conhece uma pessoa, depois de muita conversa descobrem-se amigos, confidentes, cúmplices. Seguem a conferir o outro lado da moeda e fazem sexo, e tudo corresponde à inevitável expectativa de quem já se desconfiava apaixonado. Pouco tempo depois, essa miscelânea de afinidades torna-se amor.  Em um otimismo contumaz, acreditam a cada dia mais que foram feitos um para o outro. 
Ela se surpreende com seu bom humor e capacidade de superação nos momentos mais difíceis. Sem contar que ele resolver todos os seus "pepinos".
Ela, por sua vez, se debruça naquela receita de bolo que ele adora. 
Amor é isso.
Um dia ela fica doente.  Prova de fogo para uma relação. Semanas sem sexo, sempre de camisola, deitada, descabelada. E ele ali. Incansável. Pediu licença do trabalho .
Amor se conquista ou se desperdiça é no dia a dia.
Foi a vez dele adoecer, e ela retribuiu dando o seu melhor, mantendo-se tão presente quanto ele. Nada nunca soou como sacrifício para nenhum dos dois.
Muitos créditos acumulados para ambos.
Porque amor para valer a pena,  tem que haver doação dos dois, em igual proporção.
Ninguém é capaz de fazer alguém feliz por obrigação. 
Quando um homem faz uma mulher feliz é porque ela também o faz feliz. 
Dizem que relação duradoura precisa de um banco de crédito onde se deve lançar mão quando algo não vai bem. 
Discordo. 
Crédito é saldo extra. Não me imagino "creditando" nada na conta do amor que o outro me dá e nem pedindo que "credite" na conta do amor que lhe dou.
Dedicar-se para ver o outro feliz, dizer "é por isso que eu te amo", fortalece a união, mas não garante bônus nenhum! Ele te dá, você devolve, e vice-versa.
A única obrigação que um casal tem é a de ser feliz. 
Tentar minimizar atitudes que te machucam dizendo a si mesmo que o parceiro merece crédito porque  todo relacionamento a dois "é assim mesmo", é no mínimo desrespeitoso com aqueles casais que são, realmente, felizes.
Relação saudável é feita de troca, onde ambos estão sempre quites, e por isso não sobra e nem falta nada para ninguém.
O que pode haver é débito quando insistem em manterem-se juntos depois que já se magoaram. 
E dívida de relacionamento se cobra das maneiras mais perversas...
Será que vale a pena insistir? 
Quem sabe é melhor assumir o fim daquele projeto de vida, por mais difícil que seja? 
Não existe relacionamento que sobreviva à falta de cuidado.
O crédito do amor é receber amor. E não abater erros.
Nada apaga o que já doeu. 


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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02/02/2016 às 08h07m


Ando improdutiva

Ando improdutiva. Tentando entender mais do que nunca, tudo e nada. Sempre tive dificuldade de me distrair da vida. 

Cedo compreendi que viver pedia seriedade. 

Não sei andar a margem, sempre mergulho e, às vezes, nado deliciosamente enquanto noutras, me afogo. 

Nunca consegui aprender o que me era ensinado como acontecia com todos os meus colegas e irmãos. 

Eu sempre queria saber mais. Mais "por que", mais "como assim", mais "mas... e se". 

Não fui criança. Não tive tempo ou não quis, não sei... 

Comprometi-me cedo demais com a vida que ganhei e que buscava a todo custo entender porque ganhara, e o que deveria fazer com aquele presente. 

Por muitos anos sofri por não me permitir ser enquadrada, até que um dia entendi que seria melhor viver sozinha a viver em equipe. 

Rejeitei qualquer norma, vivia dentro de um eterno quarto de castigo, por tudo e o tempo todo, enquanto dia a dia meu pai chegava em casa e falava: "Mas de novo? O que ela aprontou dessa vez?" Enquanto minha mãe, histérica, narrava algum fato típico protagonizado por quem acreditava que viver ia muito além do que aquilo que lhe era ensinado. 

Sozinha busquei respostas e conclui que viver é tentar se equilibrar entre muito destino e pouca escolha. Enfim, jamais adiantaria  colocar a culpa das intempéries sobre os ombros de alguém.

Decepção foi a lição mais difícil de todas, mas mesmo isso não poderia ser aliviado apontando o dedo a outrem. Afinal, só nos decepcionamos porque colocamos expectativa. E ainda continuo me decepcionando. Mas também sigo me surpreendendo positivamente porque em tudo na vida, há dois lados .

Coragem foi minha ilustre companheira. Sempre me atirei de peito aberto para só depois ver como ficava. Nada me travou. Minha mãe dizia "quando você tiver filhos vai conhecer limites". Tive,  segurei nas mãos deles e continuei indo. 

E ainda continuo indo. "Mesmo  sem saber o que irei fazer, continuarei caminhando". 

Por longo tempo temi não suportar a pressão e ceder ao que seria mais cômodo e me tornar apenas mais uma nessa manada humana que segue sem rumo, obediente a comandos externos, a maioria sem nenhum significado. Todos seguindo o que é certoe chegando a lugar nenhum... E o que é certo?

Por vezes, tenho medo de cansar de acreditar nas pessoas. Mas apesar das dores, dissabores e desamores, sou genuinamente crédula da alma humana e do amor. Ninguém é perfeito. Todos erramos. A diferença está na essência. A grandeza está em não desejar o mal a ninguém.

Apesar de tantos pesares ainda creio que todos temos o bem dentro de nós, e creio que o amor existe apesar de muitas vezes errarmos o endereço e falharmos em reconhecer isso. 

Em minha existência não cabe culpa e nem revolta. E muito menos medo. Há sorrisos para todos; basta ter olhos para ver.

Viver pede ousadia, quem busca excesso de paz, perde o melhor da vida.

Plagiando Clarice Lispector:
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: sentimentos - distração - vida - entendimento


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