06/12/2016 às 09h44m


O que fica quando tudo passa.

Quanto meu segundo casamento acabou cheguei a acreditar que a gente morria de amor, mas não morre. Pior que a dor são os planos jogados fora, aumentando ainda mais o insuportável vazio na alma. Saudade do que foi torturando o que poderia ter sido. Mas, as noites em claro,  a dor e a angústia que pareciam eternas passaram, e sai muito mais fortalecida, como todos que passam por essa amarga experiência. 

Nunca me forcei sorrisos mostrando que eu estava bem, também nunca fiquei cantando minha dor pelos quatro cantos do mundo. Mas vivi meu luto com prazo marcado - três meses. E foram meses cinzas sem conseguir enxergar beleza em nenhuma flor. Como combinado comigo mesma, no 91º dia (que eu ia cortando no calendário), abri a janela e o céu me abraçou. Eu estava pronta para recomeçar. 

Não me abriguei no primeiro abraço, nem me entreguei ao primeiro beijo que me apareceu. Mas tinha claro para mim que não me fecharia para a vida. Era eu só um tempo meu. 

Nesse período tive um encontro especial comigo e descobri coisas que meu ex marido me dizia e que guardo comigo para todas as vezes em que alguma situação tenta me tornar menos do que realmente sou. 

Que sou engraçada, mas n sou lá muito simpática. Tenho épocas especificas para ouvir clássicos e mpb. Sou distraída a ponto de tentar entrar em um carro preto sendo o meu, vermelho. Livros são os únicos que poderão trair as pessoas a quem prometo fidelidade. Xingo mais do que deveria (para tristeza da minha mãe).  Meu colo é o melhor do mundo e sou fiel, como poucos seres humanos. Lembrar do que meu ex marido sem nenhum tipo de rancor, me permite lembrar que ele dizia que minha comida era deliciosa, e ele tinha razão. Tinha razão quando dizia que minha risada era contagiante e que viajar em minha companhia era algo inexplicavelmente bom. Tinha razão quando dizia que estar ao meu lado era ter ao mesmo tempo uma mãe, irmã, professora, mulher, amante. Tinha razão quando dizia que eu era  a melhor motorista que ele já conhecera, mas que me perdia até mesmo dentro da minha própria cidade. 

Dizia que eu era especial e que merecia ser a pessoa mais feliz do mundo.

Acertou em quase tudo, e modéstia à parte sou especial mesmo. E  apesar de eu não me perder mais na minha cidade, continuo errando de carro. Xingo bem menos e agora, ouço quase sempre só clássicos, mas ainda continuo tendo o melhor colo do mundo. E também continuo sendo excelente companhia para viajar. Mas envelheci e descobri que atitudes me importam muito mais do que palavras (logo eu, que fazia questão de flores e frases bonitas), que livros são infinitamente melhores companhias que as pessoas (podem até me decepcionar com uma história ruim, mas nem assim eles mentem). E apesar das outras quedas que se seguiram à separação (porque viver é isso), eu nunca deixarei um bloqueio impedir que coisas boas cheguem até mim, as desilusões(sejam de que natureza forem),  não podem ser maiores do que as possibilidades de boas coisas. E nem maiores do que eu ou do que você.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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