24/11/2016 às 20h32m


Axiologia dos valores

Alice está perdida, andando naquele lugar e, de repente, vê no alto da árvore o gato. Só o rabão do gato e aquele sorriso. Ela olha para ele lá em cima e diz: 

"Você pode me ajudar?" 
"Sim, pois não." 
"Para onde vai essa estrada?" pergunta ela. 
"Para onde você quer ir?" ele respondeu com outra pergunta
"Eu não sei, estou perdida" ela disse.
"Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve" diz o gato.

É isso que o homem faz quando investe ilimitadamente no que é efêmero e dedica, quando muito, brevíssimos sopros de vida, ao que é perene.  

Mas quais valores são perenes? Depende de tantas coisas... Muitos consideram a fé perene, mas quando a vida vem e lhe derruba, abandonam-a na primeira esquina. Creio que valores mudam, como tudo na vida - quem valorizava o sucesso na juventude, valorizará a saúde na maturidade. 

Estudando sobre  axiologia, pensei em mim. 

Percebo que meus valores pouco mudaram ao longo desse quase meio século de vida. Fui uma jovem "velha"- responsável e preocupada. Sempre muito focada nos valores que poderiam me acrescentar como ser humano e que, geralmente, são os mesmos que eu poderei carregar comigo quando eu for embora daqui para sempre. 

Viver pede seriedade.Não estamos aqui a passeio.  Mas poucos pensam nisso. 

O ser humano só fica saciado até a página 2, depois precisa de mais e mais e mais. É um poço sem fundo. E sem rumo. E, como consequência, solitário.

Deseja o carro do colega, o cargo do patrão, a casa de praia do vizinho. 

Quando consegue o almejado carro do colega, já deseja o do patrão, quando conquista o cargo do patrão, quer o do diretor, quando paga a última prestação da casa de praia quer o iate. Quando forma a sua família com filhos saudáveis e uma companheira leal, sente falta de novidade e vai atrás de conquistar outra mulher, e coloca tudo a perder. 

Quando estiver doente, provavelmente, desejará não ter bebido tanto, não ter fumado tanto, não ter trabalhado tanto. 

Quando envelhecer solitário lamentará ter priorizado as novidades efêmeras ao invés da segurança de um amor leal e tranquilo.

Eu quase sempre sei o que quero. E brigo comigo mesmo para fazer menos cursos, trabalhar menos, ler um pouco menos; e poder voltar a escrever mais, a olhar para o nada,  a silenciar e voltar a me ouvir mais.  Às vezes sinto muita falta de mim.

Quero envelhecer colhendo o que plantei. Cercada daqueles que fiz por merecer a companhia. Da lealdade daqueles a quem respeitei. Quero envelhecer ouvindo música, olhando a lua e lendo Fernando Pessoa. A maturidade me fez valorizar como nunca, a paz - o meu bem mais precioso. Estar sozinha ou acompanhada não é mais importante para mim - a sorte de um amor tranquilo, deixo com Cazuza.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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