26/05/2015 às 16h14m


O tempo é relativo

Às vezes é amigo, às vezes é cruel. 

Lembrei-me de um namorado que tive dos 15 aos 18 anos. Terminamos o namoro antes do natal. Desgaste dos anos, descompasso de projetos futuros. Nenhum motivo concreto no qual eu pudesse me agarrar e dizer "pois é seu traidor, fiquei livre de você". Nada de ruim. Nenhuma acusação. Nenhuma mágoa. Cada pedaço de mim guardava a presença dele. Todas as roupas do armário, a almofada na cama, o urso de pelúcia na estante, os milhares de retratos - na praia, no campo, em casa, nos aniversários, nas festas.

Foram três natais, três réveillons, três aniversários, uma formatura, um vestibular. 

Como pedir que ele desse licença desses lugares todos? Jogando as roupas fora? Doando as almofadas e ursinhos de pelúcia? Rasgando fotos? E fazer o que com as lembranças que estavam na minha cabeça e no meu coração? Como foi difícil, meu Deus! Achei que fosse morrer, não morri. Achei que nunca mais encontraria alguém tão especial quanto ele, encontrei. Achei que quando tivesse no altar trocando alianças, me lembraria dele, não lembrei. Achei que quando meu primeiro filho nascesse, colocaria o nome que tantas vezes escolhemos juntos, não coloquei. Achei que jamais sentiria prazer com outro, senti. E assim, hoje ele é apenas uma doce lembrança. 

Muitas vezes percebo que a maturidade tenta desrespeitar a adolescênciaa, minimizando aqueles sofrimentos, como se tudo fosse uma grande bobagem. Mas não devemos permitir. Todas essas lembranças, boas e ruins, foram importantes. Cada uma delas somos nós. Nada nem ninguém foi mais como antes. Nunca é. E nem será. A vida voa, e as pessoas tentam acompanhar.

Todos temos dias ruins, importa é não desistir de dar cor ao cenário cinzento.
Não vale à pena manter relações pretas e brancas, nem quando se tem 15 anos e nem quando se tem 70. Vida é cor.  
É preciso ter bem definido dentro de nós mesmos o que queremos e o que merecemos. Esse é o termômetro de nossa felicidade. 
Para ser feliz é preciso antes de tudo, coragem. 
Para viver bem é essencial não temer as inevitáveis despedidas. 
Como filosoficamente canta Lulu Santos: "Tudo muda o tempo todo no mundo".


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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19/05/2015 às 17h14m


Maquiavel e o amor

Aquilo que a maioria das pessoas custa a enxergar por medo, comodidade ou conveniência, eu enxergo muito rápido, e, como sou frontal pergunto logo, portanto, dificilmente entro em alguma história como vítima. Eu não compactuo com essa "novela dos vitimados", pelo simples, fato de não acreditar nela. Raciocinando friamente fica fácil. 

Como diria Maquiavel "os fins justificam os meios". Só que as pessoas resistem em aceitar que tornam-se maquiavélicas na conquista de um amor. E se contorcem em seu "amor próprio" quando descobrem que o outro mentiu, inventou, ludibriou. 

Eu raciocino de outra forma. As pessoas fazem conosco, na maioria das vezes, aquilo que permitimos. 

Não estou valorando o desvalor, só estou sendo lúcida: quem nunca fez uso de algum artifício, digamos, questionável para proteger uma história de amor na qual estava apostando? Abaixo a hipocrisia, né?

Desmarcar a meia a noite, às vésperas do encontro porque alguém da família tinha sido hospitalizado em estado grave, protelar por meses outro encontro porque estava de repouso com uma pedra, no rim, no fígado, no baço, na cabeça ou seja lá onde fosse,  não atender a ligações porque estava em reunião com um superior, justificar que não termina a relação com uma quase ex por isso ou aquilo, enfim, tudo pode ser mentira mas ainda assim, a mentira se justificava por ser em defesa daquele sentimento de amor. Mentir por amor é algo maquiavélico? 

Eu sou fã de Maquiavel, talvez eu o veja além dos outros. Ele dizia também "Todos vêem o que pareces, poucos percebem o que és."

Mas, segundo meu entendimento, tudo torna-se injustificável, quando, no lugar de preservar aquele amor, as mentiras são ditas por covardia de assumir para o outro que  tudo mudou, que o sentimento passou, e ela não encarna mais o seu conceito de amor. Ninguém tem o direito de privar o outro dessa informação e optar por seguir "enrolando", tirando-lhe a chance de buscar outro amor, outra história, outros beijos, outras noites de amor. 


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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13/05/2015 às 10h48m


O bom do amor

Continuo me surpreendendo com o fato de que a verdade de ontem pode ser a mentira de hoje e vice e versa. Vejo isso por mim mesma. Eu me arrepiava quando ouvia alguém dizer que amores não foram feitos para durar. Na verdade, nunca fui de ter certezas, e ainda assim, as poucas que tive perderam-se. Ou perderam-se nos fatos, ou perderam-se de mim. Ou me perdi nelas ou me perdi delas. Sei lá. O amor está entre elas. Eu ousava ter algumas certezas acerca dele.

Antigamente, muito antigamente, quando eu ainda lia Pollyana Moça, eu jurava que todo e qualquer "eu te amo" era dito através do coração. Com o tempo percebi que não. Que "eu te amo" poderia também ser dito para atender a algum tipo de conveniência. Odiei isso e desejei pena de morte para aqueles que desrespeitassem tanto assim o amor. Até entender que "eu te amo" também encerra em si, certa relatividade. Li muito, discuti outro tanto, pesquisei ainda mais, para entender que só os anos me trariam algumas micros e incertas respostas, e, ainda por cima, mergulhadas em subjetividades. Claro. Não desejo mais a pena de morte simplesmente porque o "eu te amo" de alguém tem um significado diferente do meu. Pois é... os contos de fadas não mencionaram que até mesmo os príncipes encantados tinham um "eu te amo" próprio. Todos temos. Ninguém pronuncia um "eu te amo", sem acreditar, pelo menos naquele instante, que ama. Isso pode ser visto por alguns como algo leviano - declarar-se de porte de um sentimento que já trás 
embutido em si promessas imensas, enquanto ainda não se tem certeza. Mas, partindo do pressuposto de que certezas não existem, e promessas são apenas promessas, tudo fica mais fácil de ser, senão compreendido, pelo menos aceito.

Chego aos poucos a uma conclusão estranha. O amor dura sim. Mas o bom do amor (como dizia Cazuza), aquele bom mesmo! que transborda no momento daquele "eu te amo", esse não foi feito para durar. Ninguém suporta a intensidade delirante de um sentimento, esse tipo de emoção tem o tempo contado. Caso contrário não sobrevivemos. Sinto muito cinderelas! 

Não se pode prender o que é fluído. Amor é vento. Ao ouvir um "eu te amo" pronto! Os sonhos já se formam lá no "sim, eu te aceito como meu legítimo esposo". O bom do amor não dura até lá. Não foi feito para ser enquadrado. Vive de cenas. De episódios não escritos. De momentos. De suspiros. Da expectativa da próxima vez.  E, então, o "eu te amo" era só isso. Ou tudo isso. Depende de quem vê. Depende de como vê. Depende do que se quer ver. Ferreira Gullart disse:

"O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba."


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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05/05/2015 às 09h44m


Ciúme

Ciúme é um tema recorrente nos relacionamentos desde os primórdios da humanidade, tendo destaque entre filósofos de todos os séculos, e continua existindo "atavicamente" e sem nenhum tipo de evolução, que não a teórica, em pleno século XXI.

Na peça Otelo, de Shakespeare, há a clássica fala de Iago:
"Oh, tende cuidado com o ciúme. É um monstro de olhos verdes, que zomba da carne de que se alimenta".

Seria ele inerente aos seres humanos, desde a época em que os homens da caverna faziam uso desse sentimento para proteger sua tribo?  Se assim fosse, carregaríamos um sentimento instintivo, remanescente de um período humano praticamente irracional. Revendo... Se racionalidade não é lá o grande destaque em relacionamentos amorosos, pelo menos é preciso um esforço coordenado nesse sentido. Porque destruir a possibilidade de relações saudáveis, chegando ao cúmulo de destruir vidas em nome do ciúme, é inadmissível.

"Hoje pela primeira vez tive ciúmes dos olhos do meu primo. 
Porque eles viram-te e eu não te vi". 

Confesso-me totalmente parcial quando se trata de Fernando Pessoa, mas essa doçura com que ele se refere ao ciúme está valendo... Sentimento gostoso destinado a quem se quer sempre ao lado para dividir a vida. Ciúme dos olhos que a olham, dos sorrisos que lhe dirigem, das mãos que lhe estendem. Existe esse ciúme que é cuidado e não posse (mas eu tinha vontade de arrumar outro nome para esse sentimento que não ciúme, poderia mesmo ser "cuidado"). 

Dizem que sentimentos irracionais fazem sentido quando entendemos o que está por trás deles. O que vemos por trás do ciúme nos relacionamentos amorosos é o medo, real ou irreal, vergonha de se perder o amor da pessoa amada, falta de confiança no outro e/ou em si mesmo. Esses sentimentos podem estar embasados em alguma coisa real, como já ter sido traído por exemplo. 

Mas racionalmente, nada justifica esse sentimento. Pois senti-lo, não modifica os fatos - se tiver que ser traído, será, se tiver que ser abandonado, será, se tiver que ser trocado pelo seu melhor amigo, será. Sentir ciúme não tem utilidade nenhuma. Não ajuda, não previne, não defende, e, quando é exagerado, pode tornar-se patológico e transformar-se em uma obsessão.

Diz Rubem Alves que "O ciúme é aquela dor que dá quando percebemos que a pessoa amada pode ser feliz sem a gente".

Enfim, ciúme resume-se em desejar a posse absoluta do outro. Não basta se saber amado. Busca-se a garantia ilusória de que aquela pessoa nasceu a partir do momento em que te conheceu - não tem passado para recordar, e nem futuro para almejar, que não a sentença de viver com você e para você. 

Como a vida nunca nos dá garantia, tudo isso é absolutamente em vão. 


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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