24/02/2015 às 08h57m


Relacionamento e mentira

A dor da mentira é crônica, persistente, percebo-a fina, como se uma agulha longa entrasse e saísse em movimentos lentos, perfurando a carne sem pressa, dia a dia. 

Já a dor da verdade é aguda, uma punhalada só, fatal. Ambas derrubam, mas a primeira dilacera antes, e estando aos pedaços é mais difícil levantar. 

A mentira priva dos fatos, envolve em uma teia enorme e, o benefício da dúvida no qual o parceiro se deleita covardemente, imobiliza o outro. Ou, quase imobiliza. 

Preso e perdido, sentindo culpa, frio, falta, tristeza a "vítima" busca desesperadamente motivos que justifiquem as mudanças de comportamento, atitude, sentimento, postura do parceiro, enquanto esse segue apresentando um mix de pequenas coisas que jamais teriam força suficiente para jogar pela janela, uma relação. 

E, enquanto segue destruindo provas - apagando mensagens do celular, histórico do computador, criando novos e-mails, trocando chips do telefone, enfim, tecendo cuidadosamente a sua mentira, o outro, bem intencionado, segue sua luta para descobrir porquês e salvar a relação. E, acaba por creditar as tamanhas transformações do seu parceiro em variadas situações cotidianas que o deixaram frágil e sofrido (aquele "mix" que ele jogou e você comprou). Passa então, a culpar si mesmo, a família, aos filhos, a falta de dinheiro, aos vizinhos, ao sol que não apareceu. E, inicia um cansativo processo de reorganização na esperança de que ele volte a ser como antes – marca consulta médica (porque tudo pode ser resultado de uma depressão), troca o quarto, muda de casa, mata o vizinho, faz cirurgia plástica, pede ao sol que não se ponha tão cedo. 

Mas eis que um dia surge a verdade! As justificativas foram buscadas nos lugares errados... Como naquela brincadeira infantil: "não é por aí... tá longe, tá frio", mas o coração ignorou, e continuou a peregrinação, punindo a si e ao mundo para proteger o parceiro daquela confusão mental cruel e dolorosa que o acometeu. Enquanto isso, o outro seguia alheio àquela busca sofrida por respostas, e continuava mantendo o parceiro preso à teia.  

Dizer a verdade muitas vezes implica em perdas, mas ninguém tem o direito de omitir fatos, impedindo que o outro decida sobre sua própria vida. Isso é viver uma falsa liberdade. Para a verdade é preciso maturidade e coragem de perder.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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10/02/2015 às 07h55m


Não somos todos iguais

Sempre tive um conflito com relação à frase: "somos todos iguais". 
Não somos...
A humildade está entre as qualidades humanas que mais me encanta, por isso mesmo busco cultivá-la desde o primeiro minuto que acordo. 
Confesso que nunca havia sido difícil para mim, talvez por tanto tempo de treino, talvez por temperamento. Mas falar é fácil,  difícil é quando a vida te coloca de frente com pessoas que te desafiam e aí, você é instada a provar sua humildade com o cuidado de não confundi-la com falta de iniciativa e coragem. 
Mas o fato é, que apesar de estar conscientemente exercitando minha humildade, me pego em algumas situações, com uma imensa sensação de que sou melhor do que muitas pessoas que fizeram ou fazem parte da minha história, e de outras que cruzaram meu caminho sem minha autorização, e que fui obrigada a engolir, estejam longe ou perto. 
Ao perceber esse sentimento que se apossou de mim, hoje, achei que merecia punição. Então, peguei o carro e saí por aí para pensar. Pensei, repensei, revivi coisas, pessoas e momentos e ao invés das dezenas de chibatadas que acreditei merecer pela minha falta de humildade, decidi que merecia um belo sorvete. 
Busco a consciência de minhas faltas, e geralmente consigo, talvez devido aos anos de análise, reiki, meditação. Claro que isso não minimiza as mágoas que causei ou as injustiças que cometi, mas me protege de um grave erro, comum a quem falha: a inconsciência do erro.
Ainda acredito que a honestidade maior precisa ser antes de tudo, consigo mesmo. 
Jamais podemos tirar das pessoas que nos cercam o direito de escolher se querem ou não compartilhar a vida ao nosso lado - sejam  amigos, parceiros, filhos, pais. Não é fácil ser verdadeiro o tempo todo, mas é vital para construir e manter relações de confiança e construir histórias em terrenos firmes. 
É assim a vida, a gente cai ou é derrubada, e enquanto está lá no chão pode ficar maldizendo a sorte ou repensando o tombo. 
Não sigo religiões, apesar de buscar incansavelmente desenvolver minha espiritualidade, mas nem assim, me escondo atrás de Deus e Suas "normas" para decidir qual o erro mais ou menos grave que posso cometer,  sem correr o risco de me deparar com a porta do reino dos céus fechada para mim. Vamos abandonar a velha e cômoda hipocrisia. É preciso coragem para viver e se assumir,  e nunca é tarde para começar a desenvolver em si, um ser humano melhor.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: sentimentos - igualdade - personalidade


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03/02/2015 às 21h00m


"Felizes para sempre?"

Nessa última semana, o seriado da Globo - "Felizes para sempre?" expôs de todas as formas o tema traição. Vimos de tudo – marido traindo a esposa belíssima com uma garota de programa, esposa traindo marido com o chefe, um filho adolescente vendo a mãe traindo o pai com outro homem, professora de idade traindo o marido com jovem. aluno, e o marido da professora a traindo com uma namorada de adolescência. Resumindo, um mix de mentiras, enganações, deslealdades. Enfim, em rede nacional, assistimos pessoas que agem como se nada existisse além delas mesmas, sem o mínimo compromisso moral e afetivo com outro.

Deparei-me, então, com a entrevista de um psiquiatra sobre o assunto. Segundo a explicação (supeficial) do médico, a maioria dos personagens parece adotar uma conduta com traços de sociopatia. 

Pelo que li a sociopatia caracteriza-se principalmente por algo de errado na consciência do indivíduo, ou ele não a tem ou está cheio de buracos como um queijo suíço, ou ,de alguma forma, ele é capaz de neutralizar ou negar completamente qualquer senso de consciência ou de perspectiva sobre o futuro. Os sociopatas têm apenas o cuidado de atender as suas próprias necessidades e desejos: o egoísmo e o egocentrismo ao extremo. Qualquer outra coisa e qualquer outra pessoa são reduzidas, em sua mente, a objetos para usar e atender suas próprias necessidades e desejos. 

Continuando com a leitura, o termo "sociopata" é, frequentemente, usado por psicólogos e sociólogos  referindo-se a pessoas cujo caráter anti-social é principalmente devido a deficiências nos pais (geralmente a ausência do pai) ao invés de uma característica inerente do temperamento. Alguns fazem uma clara distinção entre o sociopata (que se tornou um psicopata por causa das circunstâncias sociais) e um verdadeiro psicopata (que nasceu desse jeito). 

A dor de quem é traído arrebanha defensores ferrenhos, e eu entendo, mas ainda assim, é preciso cuidado para não rotular a outra parte, pois por mais asquerosa que seja sua postura (e é), todos merecem, senão uma chance, pelo menos seriedade ao se levantar uma questão tão dolorosa e complexa quanto essa, afinal se todos que traem tiverem mesmo traços de sociopatia, a sociedade está toda mentalmente doente...


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: minissérie - felizes para sempre - traição - sentimentos


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