30/12/2015 às 09h54m


Cuidar do nosso mundo interno

Outro ano vem chegando. Adoro essa sensação de recomeço, ainda que esse ano um temor coletivo parece invadir o Brasil.

2015 foi um ano intenso para o mundo. Tragédias naturais, mortes coletivas, degradação política. 

Nunca se soube tão pouco sobre o que será do nosso país. Uma insegurança quase doentia domina o povo brasileiro. Em situações como essa, que nos foge completamente ao controle, melhor sair do macro para o micro e cuidar do nosso mundo interno.

Em finais de ciclo os adultos têm o hábito de sentar e contemplar o desastre (ou não) que foi a vida deles. E se lamentam sem compreender e se definham e se interrogam sobre a engrenagem  que os levou ali aonde não queriam ir. Os mais inteligentes transformam isso no gás para o recomeço por atalhos diferentes.
 
Li certa vez esse trecho em um belissimo livro:
"Uma juventude tentando rentabilizar sua inteligência, espremer como um limão o filão dos estudos e garantir uma posição de elite, e depois uma vida inteira a se indagar com pavor por que essas esperanças desembocaram numa vida tão inútil." 

Somos programados para acreditar no que não existe, porque somos obrigados a ser feliz. Mas ser feliz para mim é o mesmo que ser feliz para você? Claro que não. E descobrir isso é fundamental para que sigamos firmes independente das inúmeras inseguranças que nos acenam para 2016.
 
E que Deus nos abençoe a todos.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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26/12/2015 às 10h49m


Repensando

Vésperas de natal. Comércio em alta, vai e vem de pessoas trombando na rua, engarrafamento de trânsito, consumismo de todas as formas.

Noite de natal. Reunião de família e amigos, comida e bebida em excesso. Poucos se lembram de proferir uma oração, mesmo que silenciosa, para o "Aniversariante do dia."

Li uma vez uma reportagem a respeito de uma pesquisa que afirmava que final de ano é a época em que mais se definem relações – seja de união ou separação.

Compreenssível que pedidos de casamentos se formalizem nessa data já que a família se encontra reunida. Mas divórcio? Pois é.

Divórcio segue por outra linha de raciocínio. Na reunião familiar há muitos casais, você olha em volta e observa os mais variados comportamentos entre eles. Enquanto alguns dançam colados, se olham nos olhos, encarnam o maior chamego, outros seguem noite à dentro, se entupindo de álcool e comida, sem nem ao menos saber qual a cor da roupa de sua companheira. Entre esses dois tipos de casais, alguns estão casados há muitos anos e continuam verdadeiramente juntos. Outros, nunca estiveram de fato juntos, ou se estiveram, acabaram se perdendo pelo meio do caminho. Nesse momento uma reflexão forçada é feita e relações serão redefinidas.

Sabiamente escreveu Saint-Exupéry, no Pequeno Príncipe "O significado das coisas não está nas coisas em si, mas sim em nossa atitude com relação a elas." E dessa forma, cada um de nós dá às festas de fim de ano, com suas reuniões nababescas e barulhentas, o significado que queremos, que podemos, ou que temos coragem de dar. 

Eu ainda acho que é uma  oportunidade maravilhosa para analisar, repensar, e por que não olhar para o lado, observar os casais e a partir disso repensar se você está feliz, se seu relacionamento te satisfaz, se tem ao seu lado o companheiro que gostaria, se tem o afeto que merece. 

Talvez muitos sigam escolhendo a comodidade de dar o mesmo significado da grande maioria e apenas encarar as comidas e bebidas da noite de Natal,  esquecendo  todo o resto. Mas alguém pode optar por uma nova atitude e olhar para fora, comparando com o que carrega do lado de dentro, fazendo uma opção consciente para o próximo Natal. 

Seu companheiro pode até não saber a cor do seu vestido porque está te olhando nos olhos, mas nunca porque te esqueceu no canto da sala ao sair para encher o copo de uísque, só lembrando da sua existência no final da noite quando te levou embora, dormiu ao seu lado e fizeram amor(?), apenas por costume e não mais por escolha. 

Um brinde à sua felicidade!  


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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17/12/2015 às 15h03m


Quando Deus sinaliza

E eu voltei a assentar, sem mais me preocupar com o quarto. Eu precisava chorar. Coloquei os óculos escuros, recostei-me na confortável cadeira daquela recepção lotada de pessoas elegantemente vestidas (como as pessoas se produzem tanto para ir a um hospital? (Vai ver eu é que beiro mesmo ao desleixo, com meus eternos tênis e jeans). Minha mãe se foi e eu não rezei dessa vez. Só chorei. Senti uma compaixão inexplicável pelo mundo, pelas pessoas, por mim mesma. É uma vida de tantas perdas... essa de todos nós. Muitas vezes desejei sentir menos. Ou, quem sabe nada. Eu queria chorar ali só pela minha mãe. Mas chorei pela moça que estava ao meu lado e que acabara de saber que não poderia ser mãe. Chorei pelo porteiro do hospital que me contou que o filho drogado lhe deu um tiro em um momento de fúria. Chorei pelo bebê lindo que recebia alta, depois de três dias de UTI. Tão pequenino. 

Quando o ano vai terminando percebemos que não foi nada fácil, nem para mim e nem para milhares de pessoas. Nunca me acho vítima, só fico exausta buscando as lições. Errar os mesmos erros é um poderoso aniquilador da auto confiança. 

A primeira coisa que digo aos meus alunos é que se emocionem sempre. Eu não saberia fazer diferente. A dor do outro é a minha. Sempre será. Por mais que isso me imbecilize aos olhos de muitos. A cada dia tenho mais convicção de que isso aqui é ínfimo perto do tanto que nos espera nessa imensa existência que todos protagonizamos. Então, de que me importa os olhos dos outros? 

Fui para rua, caminhar, sem me importar com o que seria feito das malas e travesseiros. Um senhora estava sentada pedindo esmola. Eu estava com uma estranha sensação que por vezes me acompanha, de que tudo é uma grande ilusão. Eu, o mundo, e aquela indigente. Poderia ser ela a angustiada por causa da mãe no centro cirúrgico e eu ali, a pedinte, em seu lugar. Ou seria mesmo assim? Nesses momentos, perco os poucos limites que me centram... Afinal quem sou eu? Acho que fiquei parada olhando por tempo demais, o que a levou a me perguntar porque eu tinha chorado. Eu acho que falei algumas coisas desconexas que nem me lembro. Ela, então, me deu uma medalhinha de São Jorge e tinha lágrimas nos olhos. Lembrei de Rubem Alves que diz "Não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo aqueles que têm belezas dentro de si". Ela tinha a beleza. No meio da miséria. Como uma flor no pântano. Ela se preocupou com um semelhante, ela se emocionou. E é assim, desse jeito, que Deus sinaliza para mim nas poucas vezes em que acho que vou perder as forças.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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10/12/2015 às 10h18m - Atualizado 17/12/2015 às 14h09m


Latinha de Refrigerante

Quando criança eu adorava brincar de significado/significância - olhava para uma latinha de refrigerante  e imaginava o que mais ela poderia ser além de uma latinha de refrigerante - um carrinho, um foguete, um cachorro. E nada me escapava,  era divertido reinventar as coisas. De alguma forma segui fazendo isso. 

A destreza com que recoloco, transfiro, remanejo acontecimentos e pessoas  em minha vida ainda me surpreende. A segurança com que convido alguém a ocupar o topo da minha alma é a mesma usada quando estendo-lhe a mão e convido-a a descer e se retirar. Eu me concedo sentimentos de segurança. Ainda sou um pouco dona do meu universo. Além do que, me é inerente o sentir-me extremamente livre. Desconheço dependências, e,  nas poucas vezes que digo "preciso de você" assusto-me e recuo. Sei que não preciso, apenas quero. Eu sempre vou seguir, independente das pessoas. 

Quando o dia nasce, nasce com ele outro de mim, em um processo diário de reconhecimento "do ser e do vir a ser". Para mim, o segredo para se viver bem é adaptar-se. Minha capacidade de adaptação é imensa. Quando eu era casada, temia dirigir na estrada, detestava fazer compras de mercado sozinha, tinha preguiça de levar o carro para revisão e não concebia a ideia de dormir sozinha. Com poucos dias de solteira fazia tudo isso com a mesma naturalidade com que abro meus os olhos pela manhã. As ideias e as pessoas só me fazem falta enquanto concedo-lhe esse direito, mas no momento em que eu decido, tudo que era deixa de ser, e confesso, que até eu me assusto com a solidez que isso se dá. 

Eu tenho sonhos, claro, mas muitas vezes desfaço-o ainda no ar, imagino que é tão frustrante quanto abortar o lançamento de um foguete, mas da mesma forma, necessário. Meço muito bem se o ganho possível é maior que o prejuízo provável. 

Eu ressignifico o mundo que me cerca ou me reinvento para esse mundo, calmamente, enquanto tomo um sorvete. A frase do  crítico francês Andre Gide -"As coisas apenas valem pela importância que lhes damos"  norteia minha vida e relações. É simples viver. Difícil é quando se faz resistência à vida. A maioria vive do que virá - serei feliz quando alguém chegar ou alguma coisa mudar. Fatores externos nunca deveriam ser determinante ao bem estar de alguém. Isso é óbvio. Basta ver exemplos  mostrados na TV - a mãe que perdeu seus 4 filhos em uma tragédia natural, abriu uma creche para cuidar das crianças que ficaram órfãs, e conta isso com sorriso no rosto, enquanto a outra perdeu o marido na mesma tragédia e tentou o suicídio.

Dependência gera controle. Controle é sempre ilusório. A conquista, seja ela de que natureza for, só se dá verdadeiramente, quando se oferece a liberdade. A mão que liberta é a mesma que recebe. 

Sempre vou transformar minha latinha de refrigerante em um móbile bem bonito, porque minha vida quem cria sou eu. Esse poder é somente meu.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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02/12/2015 às 09h10m


Desatenção

Desantenção é um perigo. 
Quando damos conta, o tempo passou, e,  nos atropelou com sua urgência.
Muitas vezes nos sentimos donos de algumas verdades, talvez nem seja um ato consciente. 
Em um tremendo contra senso, defendo a não existência de verdades únicas, e de modo imperativo expunha as minhas. Mas essa lucidez não me chegou aos poucos. Não acordei um dia e pensei "Ih! me acho sabichona demais e isso é terrível!" 
Nunca somos portadores de tamanho reconhecimento de nós mesmos, apesar de que eu busco muito por isso. 
Como dizem por aí "miséria pouca é bobagem" e a miséria humana, como praga, está espalhada por toda parte, e eu, claro, não escapei. 
É miserável quem vive na escuridão que é desconhecer-se. O homem desfila sua inconsciência e  alimenta essa sociedade permissiva. E assim seguimos em uma retroalimentação negativa.
Eu achava que me mantinha alerta. Nada disso. Como disse, desatenção é um risco. Aumenta a inevitável vulnerabilidade humana, e quando por um "santo" motivo qualquer você é despertada, entende quanto tempo perdeu tentando ser quem não era, vivendo uma vida que não acreditava, fazendo apostas alheias como se fossem suas. 
Raramente quem você é, encontra-se onde você está.
O caminho de volta é doloroso, dificílimo, mas pontual. 
Só vive a rica experiência de se reerguer do chão  quem já esteve nele. E, mais dia, menos dia todos estaremos estatalados lá. 
Enquanto a humanidade optar pelo caminho mais fácil e preferir sempre "estar" ao invés de "ser", será assim. 
O curso natural da vida segue, e você não encontrará atalhos para se refugiar o tempo todo. Chegará o momento que fugir se tornará impossível e aí, boa sorte a todos!


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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