26/08/2014 às 08h34m


Ode aos amores tardios

Queria ter te conhecido antes, muito antes... 

Num tempo em que nenhum de nós dois tivesse cicatrizes... queria ter estado ao seu lado enquanto você  ainda garimpava diamantes... quando acreditava que  a cura não dependia do veneno. Queria ter sido sua escora na primeira vez em que a vida lhe puxou o tapete... 

Quem me dera ter chegado a tempo de enxugar todas as suas lágrimas, de ter sido seu porto seguro quando você descobriu que viver era navegar em mar revolto... 

Queria ter construído um ninho para nós dois e ali criado nossos filhos e protegido você de toda dor. Queria ter chegado na sua vida quando você ainda acreditava em anjo, para poder lhe dizer: acredita em anjo? Pois então, sou o seu... soube que anda triste, sentindo-se sozinho, desconfiado que ninguém te ama, aí eu vim, estou aqui para cuidar de você, te proteger, te ensinar a sorrir, te compreender sem reservas, te ouvir sem julgar e quando você tiver muito cansado, te embalar para você dormir. 

Queria ter chegado na sua vida quando você ainda sonhava, quando seu coração ainda descobria o que era o amor, quando seu corpo descobria o que era desejo, queria ter chegado antes dos seus sofrimentos, para segurando a sua mão com força, te dar a certeza de que jamais estaria sozinho. Queria ter tido a chance de estar ao seu lado desde sempre para juntos termos aprendido as lições da vida. Queria ter te conhecido ao mesmo tempo em que suas esperanças chegavam, seus sonhos, ainda  puros e corajosos, brotavam sem temores. Porque não cheguei quando nossas almas ainda guardavam a ingenuidade dos que acabam de nascer? Pena termos nos encontrado só agora... coração viciado, crenças arraigadas, culpas que engessam novas possibilidades... Que pena... logo agora quando já temos imagens tão distorcidas da vida... monstros imaginário imensos a engolir nossa expectativa de futuro. Queria tanto ter te encontrado quanto eu ainda era eu e você era somente você, sem imagens de um espelho a refletir tantas coisas tortas antes de permitir que sua imagem linda reflita e encontre somente a minha. Queria tanto poder construir a partir de agora um "você e eu", diários... para sempre... o resgate de um tempo passado, não vivido e de um futuro cheio de possibilidades, mas tão difícil de acreditar que será vivido. Queria você agora... para juntos construirmos uma nova vida, a vida que não tivemos, num outro tempo, um tempo só nosso... mas  há correntes pesadas demais, nos pés e na alma... A única chance seria acionar nossas asas, mas é preciso muita coragem para tirar os pés do chão... Tirei os meus desde que te encontrei... estou à sua espera... e quando você não mais puder sentir o vento das minhas asas em suas costas,  é porque voei... para longe... e para sempre...


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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19/08/2014 às 08h52m


Quem ama trai

Depois de muito relutar chego à triste constatação de que quem ama trai.

Contraditório sim, mas está aí. Após muitos relatos, leituras, discussões e algumas "entrevistas", acato isso com pesar.

Como tudo na vida, o amor também guarda sua relatividade, nasce e habita em seres completamente diferentes entre si, e assim, é vivido de forma singular.

Há um princípio básico que fundamenta esse sentimento que é o respeito. Eu acredito nisso. Sem respeito não há terreno para o amor. Mas quem trai está desrespeitando?  Para mim é óbvio que sim, mas para muitos, não. Milhares (principalmente homens) justificam que "pulada de cerca" é algo inofensivo, uma distração, um ato sem importância, vazio de significados. Utilizam-se do corpo com mais irracionalidade que os próprios bichos.

Eles dão carinho às suas mulheres, conforto, sexo de qualidade, passeiam juntos, trocam ideias sobre tudo, são amigos e companheiros. "Apenas" ele guarda um segredinho (afinal todos precisam de privacidade...) – ele faz sexo com outra, pula cerca com o fôlego de um atleta, mas é só para relaxar...

"Jamais magoaria minha esposa! Por isso não conto nada a ela, também é uma mentirinha inofensiva. Meu amor é para ela, sou inteiro dela. Eu a amo demais!"

Inteiro? Então você desatarraxa a parte do corpo em questão, deixa lá no local se distraindo enquanto você fica agarradinho a sua esposa vendo TV, e quando acaba vai buscá-lo e recoloca-o no lugar? Não consigo enxergar as coisas de forma tão simplista. Sexo envolve todos os sentidos humanos. É um momento de troca, de entrega, de descoberta, não há como realizar tudo isso sem envolvimento.

Muitos garantem que há. Que tudo é feito assim mesmo, de forma desmembrada, despersonificada, cabeça e coração em casa e o resto in loco.

Eu continuo perdida, relatando o que percebo, mas desacredito. Quem concebe o amor como eu o concebo, pode compreender a minha dificuldade.

Ninguém está livre de se apaixonar por outro e trair e, de preferência, ir embora, ou não, não há regras. Mas passar a vida toda transando com outras e achar isso normal, é desconcertante.

O que eu posso atestar aqui por tudo que li e ouvi é que esses homens dedicados à família realmente acreditam no amor que destinam à suas companheiras. E elas? Bom, elas seguem felizes (dizem eles), e nem imaginam o que fazem quando dizem estar com os amigos. Foi-lhes negado o direito de escolher se querem ou não participar desse triângulo.

Entendi que o amor tem várias faces. Inteligente é buscar uma que seja bem parecida com a sua.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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12/08/2014 às 08h06m


Carta aos ex-pais 11-08-14

Senhores ex-pais,

Sei que existem milhares de pais coitados, viciados, miseráveis, que espancam os filhos. A lei os condena. Mas (quase) não condena pais que como vocês, tornam seus filhos vítimas do abandono afetivo e ainda ferem o princípio da dignidade humana e o princípio da afetividade.

A postura paternal de quem esquece que colocou filhos no mundo é no mínimo, imoral.

Quantos momentos ruins seus filhos passaram, quantas psicólogas, quantas tentativas das mães em minimizar a dor causada por suas irresponsáveis ausências?

Vocês presenciaram seus filhos, já adolescentes, chegando em casa pela primeira vez de madrugada? Vocês conheceram o prazer de, após dias debruçados junto com eles sobre um livro de matemática, vê-los chegar da escola com um sorriso no rosto agradecido por terem recuperado a nota? Vocês nem viram seus filhos tornarem-se adultos! "É porque depois de divórcio tudo fica difícil." Como assim? Difícil deveria ser dormir tranqüilo depois de abrir mão de ser pai! Divórcio é de marido e esposa, jamais de filhos! Vocês conseguem a proeza de manter por anos a fio, uma relação com seus filhos baseada em parcos telefonemas, um almoço anual e uma pizza semestral para alívio de suas consciências. Vocês certamente tiveram todas as chances de reformular essa fundamental relação pais/filhos, após o divórcio, mas dava trabalho e não dava lucro, então vocês não o fizeram. Vocês não se afastaram dos filhos porque se divorciaram, afastaram por opção. Acredito que no início a ausência da convivência diária, lhes tenha feito sofrer, mas foi mais prático conviver com essa dor do que se estruturar para tê-los perto não é?

É inadmissível que pais possam negligenciar um papel que lhes foi confiado por Deus! Nos finais de semana, feriados, férias, vocês nem cogitaram ficar integralmente com seus filhos, para acordarem juntos, almoçarem, tomarem banho, ver TV, dormir?

Não fez falta aquelas mãozinhas no seu pescoço quando eles ainda eram crianças?

Provavelmente de vez em quando tudo isso vá lhes assombrar e quem sabe uma hora vá até lhes consumir... Natais e aniversários, e vocês os pegavam só o tempo de trocar presentes...

Quantas vezes essas mães recorreram a vocês por causa de problemas relacionados aos seus filhos, e vocês reviravam os olhos impacientes – será que ela não percebe que esta me incomodando?

Fácil escrever bilhetes dizendo "papai te ama, nunca se esqueça disso". Amar os filhos nunca foi suficiente para fazê-los homens de caráter, nem cidadãos responsáveis, para isso é preciso dedicação. E esse dedicação independe do fato de se estar casado ainda com a mãe. Ao separar vocês também deixaram de ser pai. Dormiam ou estavam embriagados enquanto os filhos cresciam.

Certamente vocês vão atingir o grande objetivo de suas vidas – uma velhice abastada e só aí, irão compreender que amor não se compra, pois essas mães que criaram sozinhas os filhos que seriam de vocês dois, certamente estarão com a casa cheia de netos. E vocês?

Não desejo mal a nenhum ser humano, mas para sempre desejarei a todos os pais ausentes que a vida, de alguma forma, lhes faça ter consciência de cada lágrima, cada tristeza, cada decepção, cada frustração, cada sentimento de abandono que causaram aos seus filhos.

E aos pais de verdade, todo minha admiração e respeito.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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04/08/2014 às 21h55m


O que eles buscam na 2ª vez

Certa vez, em um curso qualquer em BH, fizemos uma pesquisa com homens na faixa de 35 a 45 anos, todos com filhos e já divorciados, e me lembro que a característica que eles almejavam em um segundo relacionamento, era o bom humor. Fiquei surpresa...Um simples bom humor! Será que a TPM está durando mais tempo do que os homens podem suportar, ou está mesmo faltando o imprescindível "alto astral" que faz a vida a dois mais gostosa?

Outra característica relevante na busca pelo "amor ideal" foi cumplicidade... Percebo mesmo que essa palavra anda perdida de sentido e significado. No dicionário diz-se que cúmplice é quem participa do crime do outro. Quer maior parceiro do que esse? Estar ao lado para o que der e vier? Ao lado quando o outro ainda era uma mera sombra, sem nem ao menos saber se um dia, brilharia.

No sentido figurado é quem ajuda, favorece. Favorecer o crescimento do outro, o aprendizado do outro, a (re) construção do outro. Coisas tão simples, e tão em falta nos relacionamentos. Não dá tempo... Nem tempo de rir com o outro, nem de rir do outro, nem de rir para o outro. Não dá tempo de ir com o outro, ficar com o outro, esperar pelo outro.

Sabe também o que os homens do século XXI buscam para arriscar suas fichas pela segunda vez em um relacionamento? Além de bom humor e cumplicidade, buscam uma dona de casa! Isso mesmo...  Uma "mulherzinha" (com todo o meu respeito e admiração, até porque, confesso, me considero uma) que saiba cozinhar, que coloque flores sobre a mesa, e que lhe faça cafuné. Pensei que eles só quisessem peitos grandes, saltos altíssimos e uma performance digna de acrobatas na cama. Mas não... 

Por incrível que tenha me parecido, eles não colocaram em primeiro plano nem a beleza, nem a cultura, nem a profissional de sucesso. Desejam mesmo, uma mulher comum, de verdade, que ao invés de silicone no peito, tenha peito para enfrentar a vida ao lado dele, que tenha sensibilidade para compreender a dimensão das tragédias humanas.  Que ao invés de saber discutir a bolsa de valores, goste de poesias. Que ao invés de passar horas no shopping, opte por ver um filme com ele, debaixo do edredom.

Certifiquei-me que os homens depois da tentativa frustrada do primeiro casamento, buscam uma mulher só para eles, sem a preocupação de atender às exigências do "mercado externo". Não importa se tem um cargo importante em alguma empresa, se foi modelo na década passada, se pinta os cabelos ou equilibra-se bem em um salto agulha. A maioria buscou por isso quando juntou, pela primeira vez, as escovas de dentes, e... Deu no que deu.

Dessa vez buscam um ser humano, do sexo feminino, que tenha uma alma, antes de um corpo, que tenha sensibilidade, antes de cultura, que gaste horas rindo, ao invés de horas no salão de cabeleireiro, que seja cúmplice de todos os seus dias, mesmo quando esses, por algum motivo, viram noites sem estrelas.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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