29/07/2014 às 07h50m


Barba Azul

Quando criança, tinha pavor da história do "Barba Azul" – homem rico e feio que matava todas as suas mulheres que porventura entrassem em um determinado quarto do castelo. Na adolescência fui apresentada a uma nova versão do personagem, quando uma professora de literatura disse: "meninas, fujam dos Barba Azul – sempre galanteadores e infiéis".

Cursando filosofia, em uma releitura desse conto infantil, fui apresentada a mais uma versão do temido personagem, por quem me apaixonei, não perdidamente, porque já não me perdia tão facilmente. Apaixonei-me pelo que ele passou a representar para mim – homem de olhos lindos, que de tão azuis, coloriam com seu brilho sua barba, conferindo-lhe esse apelido; não matava mulheres, no sentido de privar-lhes a vida, não era um sedutor e muito menos infiel, era sim, um homem honesto que sabia com precisão o que buscava em uma mulher, e nunca escondeu isso de nenhuma delas.

Enfim, ele não enganava (nem a si mesmo), nem prometia o que não poderia cumprir. Em minha opinião, ele era um homem muito bem resolvido e que usava de sua racionalidade em prol de um verdadeiro encontro de amor. 

Barba Azul, namorava muito, mas uma de cada vez, e sempre usando de uma verdade inimaginável, onde não cabiam frases de efeito, nem invenções para impressionar a pretendente. Apenas dizia: "Minha busca é por uma mulher que considero como sendo ideal para mim. Pode ser você, ou não. Para sabermos, convido-a a viver no meu castelo por uma semana enquanto eu vou viajar. Aceita"? Todas aceitavam, e nenhuma, apesar de dotadas de beleza e cultura, passava no teste, momento em que ele dizia: "Sinto muito, não posso casar-me com você". Ele realmente matava, mas era o sonho dessas mulheres, e preservava o seu. Ato inteligente.

Um dia caminhava pela praia quando avistou Stella Maris "ela não era bonita, bonito eram seus olhos, bonita era sua voz… ouvi música no seu coração." Pela primeira vez ele quis jogar suas convicções para o alto e pedi-la em casamento, mas ele não queria desviar-se por um atalho incerto. Não queria viver momentos, queria apostar no "para sempre", no qual tanto acreditava. No castelo ele a explicou que iria viajar, e deixaria com ela um molho contendo sete chaves. Ela deveria usar uma chave por dia para abrir os aposentos nelas indicados. E assim o fez – ele partiu, e ela foi conhecer cada um dos quartos.

Quando ele voltou de viagem, repetiu o ritual de anos – pegou as chaves das mãos da pretendente, trancou-se em seu quarto, assentou-se confortavelmente na poltrona, e de olhos fechados foi segurando uma por uma as chaves. As chaves continham o poder de reproduzir no seu coração todos os sentimentos que sua pretendente experimentara ao abrir cada uma das portas.

Enfim, a esperada sétima chavetransmitiu a Barba Azul, o que ele sempre esperou de uma mulher, e, emocionado, percebeu que sua busca havia terminado. Levantou-se foi até Stella Maris e pediu-lhe em casamento.

"Mas então… porque eu"? Perguntou ela

"Porque entre todas, você foi a única que aceitou fazer companhia à minha solidão".

Saber o que esperamos do outro é a única maneira de não errarmos na escolha.  Quando você já for uma boa companhia para o seu silêncio, busque quem também o seja. Desconfio que isso seja amor.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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21/07/2014 às 20h31m


A moral do rebanho

A moral do "rebanho" valora sempre o outro como ruim e "nós" como bons. Nietzsche dizia que o rompimento com o padrão moral era a única forma de nos livrarmos dos conceitos errôneos que a sociedade nos "enfia" de bem e mal para que, livres, pudéssemos descobrir, através da consciência, e não da obediência,  os verdadeiros valores que nos motivarão a superar nossos instintos e colaborar para uma humanidade autenticamente voltada para o bem.

Tenho sentido que estamos cada vez mais distantes disso. Poucos desenvolvem a consciência, preferindo encostar, confortavelmente, na obediência divina e amarrando seus instintos como se fossem "bicho bravo", esquecendo-se, que um dia, sempre escaparão, fugindo do controle.

Há muitos "instintos fora do controle" de pessoas que se auto intitulam do "bem", onde a palavra Deus é citada em profusão, funcionando como escudo da insanidade. São sanguessugas humanos. Sugando a paz. Zumbis nada mais são que sombras de pessoas vivas, que infelizmente têm o poder de perturbar, mas nada mais que isso. 

Não entendo como pessoas visivelmente articuladas desperdiçam  vida, ou melhor, a energia da vida em busca do controle de outro alguém... Todos temos uma vida ativa - trabalhamos, criamos filhos, estudamos, temos interesses, participamos de alguma forma da comunidade em que vivemos, tudo isso engrandece, enobrece, nutre, isso é o bem em nós. E, nos momentos de ócio onde pode-se ler um livro, olhar a lua, andar de bicicleta, ouviu música. Existem muitas pessoas que tentam viver a vida dos outros (as redes sociais que o digam...) Mas isso é impossível! E, ainda que tenham passeado pelos mesmos lugares, entrado e saído pela mesma porta, esperado no mesmo ponto, olhado nos olhos da mesma pessoa, sentido o mesmo toque, até sonhado os mesmos sonhos, nunca passará disso.

É preciso cuidado para não considerar que "fulano é do bem e sicrano é  do mal". Eu não tenho padrão moral justamente para não incorrer em erros terríveis, portanto não julgo. Pois as certezas sempre escorrerão por entre nossos dedos. No fundo (e no raso também) ninguém controla nada. 


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: rebanho, moral, filósofo, paz


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17/07/2014 às 09h00m


Vida nova precisa ser toda nova

As pessoas nunca deveriam se "distrair", deixar de perceber tudo que lhes cerca, porque creio que tudo, mas tudo mesmo contêm alguma lição, e se acontece sob minha "jurisdição" é porque dali, vou assimilar algo. 

Relacionamentos humanos são grandes fontes de aprendizados, mas ainda assim, destaco relacionamentos românticos como as maiores fontes de aprendizado. Pais e filhos, irmãos, avós, tios e primos, enfim, são relações impostas, já o amor é uma relação escolhida, mesmo que de certa forma, seja uma escolha "prisioneira" de todas as nossas outras relações. 

Creio, indiscutivelmente, na doutrina da reencarnação, mas como questiono tudo, sempre busquei entender qual é o objetivo Divino para jogar sobre nós o véu do esquecimento, pois caso lembrássemos o que fizemos em outra vida, seria tão mais fácil seguir o caminho da luz e não tropeçar nas mesmas pedras. Li muito sobre isso e ouvi outros, mais estudiosos, mas nunca fui saciada nessa questão. Deixei-a de lado. 

Após assistir tantos finais cercados de deslealdades dos parceiros, traições, atos levianos, mentiras, omissões, justificativas diversas, e aquele desfecho de sempre - cada lado tem sua versão, cada um defende sua verdade, cada um tem o que acusar e também o que se defender, pensei  - "se todo candidato a novo parceiro fosse colocado em uma sala fechada com o ex de seu atual amor, e ali pudesse ouvir tudo sobre ele, será que não poderia ser evitado mais sofrimento e rompimento? "Ri de mim mesma, claro que não! Histórias são vivenciadas a partir dos protagonistas, ou seja, se mudam os personagens, muda o enredo. Quem foi desleal, traiu, mentiu, omitiu, não quer dizer que agirá do mesmo modo. Mas, que há uma tendência, ah... isso há! Mas a vida não é feita de tendências, histórias não são construídas sobre suposições e achismos... O caminho a dois não existe, o que existe são dois que construirão um caminho comum e singular. Pessoas têm a chance de se transformar a partir do referencial que o novo parceiro lhe trás, a partir de um olhar, de um gesto, de uma postura, portanto, ouvir de um ex a respeito do atual, é tolher chances e possibilidades de, a partir daquela convivência, nascer outro ser humano, e isso ninguém tem o direito de fazer. Uma história não pode condenar seu personagem para sempre.

Dessa forma, creio que encontrei a minha resposta a respeito do véu do esquecimento da doutrina reencarnacionista. Lembrança de outra vida seria um alerta sobre nossas falhas, o que desencadearia temores, inseguranças e medos, embotando assim novas possibilidades, encolhendo nossa crença acerca de nós mesmos, nos forçando a olhar para aqueles que fizeram parte da nossa caminhada de modo tendencioso, dando maiores chances a uns e excluindo outros. Isso não seria uma nova vida... Isso seria uma vida recomeçada, cheia de retalhos emendados, de cacos colados, de suspiros entrecortados. 

Vida nova precisa ser toda nova. Portanto, boa sorte a todo ex e suas atuais, e a mim e a você que somos atuais do ex de alguém, e somos ex dos atuais de outras... É o ciclo da vida.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: relacionamento, namoro, casamento, amor


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07/07/2014 às 22h22m


Passamos a vida fugindo.

Passamos a vida fugindo.
De tudo. Tempo integral.
Fugimos a qualquer custo de ficar sozinho, para descobrir depois que solidão a dois nos leva ao encontro de uma solidão duas vezes maior.
Pagamos caro para fugir das marcas da idade e comemoramos cada ano de vida que nos trás justamente as marcas que vamos continuar tentando apagar.
Perdemos quase todos os prazeres da vida com objetivo de afugentar as doenças, enquanto continuamos nos estressando no trânsito ou em um mal casamento, e mesmo nunca mais tendo saboreado uma pizza, acabamos produzindo um câncer.
Pais se descabelam buscando uma "fórmula" para afugentar as temíveis drogas de perto de seus filhos, enquanto dentro de casa bebem e fumam "socialmente", desde que esses são bebês.
Trabalhamos feito louco para fugir das instabilidades financeiras, e com isso, a cada dia ficamos mais longe de nós mesmos e daqueles que amamos, e depois gastamos grande parte do dinheiro que guardamos para reaver a saúde emocional que perdemos.
Blindamos carro, subimos os muros das residências, contratamos seguranças para fugir dos assaltos enquanto a mídia manipula nossas escolhas, e como robôs, nos tornamos vitrines ambulantes que aguçam as diferenças sociais e são iscas para os assaltos dos quais tentamos fugir.
Participamos de programas sociais através dos 0800 para afugentar a culpa que nos consome ao ver tanta desigualdade e vamos de encontro a uma miséria pior ainda quando entendemos que o que é fundamental, dinheiro nenhum poderá comprar.
Quanto mais a donzela foge do seu príncipe, mais forte ele vive em seu pensamento.
Fugimos do novo, fugimos das mudanças,  - de amor, de cidade, de emprego, de religião, de um encontro, temendo desarrumar nossos hábitos, nossa rotina, derrubar nossas crenças e nossas "certezas".
Fugimos do tempo enquanto a vida esfrega na nossa frente que a manhã já virou noite e que o carnaval já virou outro natal. O tempo não espera que nossos temores passem. 
Quanto mais fugimos, mais perto ficamos do que queremos nos afastar. Pólos opostos são imãs. Então, de um jeito ou de outro, a vida sempre nos encontrará. 
Enfrentar é mais inteligente que fugir


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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01/07/2014 às 09h12m


"Hino das separações"

A primeira vez que li este texto fiquei atônita, nunca tinha visto uma dor descrita com tanta objetividade. Por breves segundos tive a sensação de que a autora havia escrito um "hino das separações". E entendi, definitivamente, o que no fundo, sempre soube - não haverá a primeira e nem a última a sofrer por amor, todos navegamos nesse barco de papel chamado "vida a dois", e, ao virar a esquina de uma história haverá sempre o risco de qualquer coração bater no poste e se acidentar gravemente. Mas há cura e chama-se tempo. Posto aqui esse texto (de uma amiga) que retrata a dor experimentada pela autora, por mim, e por tantos "vocês", para que possamos renovar a certeza de que tudo sempre passa e que em qualquer momento é possível recomeçar.
 
"Quando ele cruzou o limiar da porta, e o vi pelas costas, levando consigo os meus sonhos de um amor ideal, minhas esperanças de uma vida perfeita, minhas ilusões, desmoronei. O chão abriu-se sob os meus pés, e me senti tragada. 
Estava tudo acabado. 
A desilusão fechou-me as portas da alegria, e da vontade de viver, e abriu-se uma torrente de lágrimas. Eu mal conseguia acreditar que pudesse ser verdade, tudo o que estava me acontecendo. Por vezes fechava os olhos, na esperança de ao acordar, constatar que tudo não passava de um terrível pesadelo... 
Mas, não era. 
A vida perdera as cores, tudo me parecia cinzento, sem sentido. Desaparecera o brilho dos meus olhos, e eu já não ouvia a música suave que cantava o meu coração. 
Desmoronei. 
Que dor lancinante! Nunca imaginei que o desespero causasse uma dor tão doída e tão profunda... De angústia e tristeza foram pincelados os meus dias. E o meu coração inconsolável, gemia, inconformado pela perda, e pela saudade incontida. Tudo em que acreditei, tudo o que investi, tudo que mais amei, se dissipava da minha vida como fumaça ao vento. 
Caí, me prostrei. 
Expus as feridas da minha alma. Deixei me conduzir pela solidão. Debati-me à procura de veredas, de caminhos amenos, porém, nada aplacava a minha dor. Por momentos tornei-me fria, insensível, para logo depois, tatear a procura de esperanças, e de paz interior. Sofri horrores, por dias que pareceram sem fim. E me permiti ficar assim, até me esvaziar por completo de toda dor, e perceber que a vida é mais que o desengano. Mas aprendi, às duras penas, e o desengano me fez compreender, que a vida é tecida na imprevisibilidade, por pessoas falíveis, com qualidades e defeitos, e que, portanto, estão sujeita aos desencontros, e desencantos."  


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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