23/06/2014 às 22h54m


Um jardim, a dois.

Um dia resolveu que ia construir um jardim imenso, a dois. 
Teve medo. 
Era preciso muito investimento e as pessoas diziam: você não tem nenhuma garantia de retorno
Não tinha. 
Mas amava imaginar aquele jardim imenso, colorido, repleto de borboletas, perfumes e cheiro de terra úmida, então, jogaram-se nesse sonho, os dois. Foram anos escolhendo cada muda, afofando a terra, fazendo as covas, plantando, aguando, tirando ervas daninhas. Não se cansavam, tudo foi feito a quatro mãos, sem reservas de investimento. O jardim exigia empenho e não desculpava um cochilo sequer, de nenhum dos dois. Às vezes aparecia algum inseto intruso e colocavam remédio, e de cócoras iam procurando qualquer vestígio de praga, os dois. Apenas uma vez ela ficou cansada, uma única vez, e por pouquíssimo tempo, o jardim não perdoou. Murcharam as rosas amarelas, suas preferidas. Perguntou ao parceiro porque não cuidara delas - tinha que escolher, sozinho não dava tempo de cuidar de tudo. Ela entendeu que descuidar do seu paraíso poderia ser fatal. E seguiram em dupla.
Um dia foi a vez dele. 
O cansaço lhe abateu e ele deixou de lado o jardim. Ela ficou triste, colheu-lhe flores, mostrou-lhe as novas borboletas que  sobrevoavam por ali, contou-lhe sobre uma nova muda de alfazema, e nada. 
Sentiu-se só. 
Desinteressado ele disse: "Perdi o prazer de cuidar do nosso jardim. Não sei explicar. Também estou triste. Não queria que fosse assim, mas quero outros jardins. As ervas daninhas que sempre arranquei sem sacrifício, agora me aborrecem. Cansei também dessas mesmas borboletas coloridas que amava olhar. Não aguento mais ver as mesmas variedades de flores que antes me encantavam. Enjoei desses mesmos aromas que durante todos esses anos me faziam fechar os olhos e suspirar. Chega desse jardim.
Ela resolveu que continuaria cuidando de tudo. 
Sozinha. Pelos dois e para os dois. 
Amava o jardim que semearam e cuidaram juntos por tantos anos. Aguentou  por um tempo. Mas não deu conta. Pesou-lhe  ficar de cócoras catando as ervas daninhas sozinha. 
E assim, morreu um lindo jardim.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas:


Compartilhe:



16/06/2014 às 22h49m


Não minimize as evidências

Sempre defendi que o ser humano não deve ser rotulado, empacotado, lacrado e adesivado  com etiquetas indicativas: "louco", "infiel", "impaciente", etc. 

Todos têm a chance de evoluir, afinal, estamos aqui para isso. Diagnosticar alguém como se seus defeitos fossem uma doença incurável é um ato desumano. E creio mesmo que todos possam modificar posturas, hábitos, atitudes. Mas há uma diferença imensa entre a possibilidade de mudar e o desejo de realizar essa mudança. Sair da zona de conforto exige imenso esforço, e ainda que essa zona não seja tão confortável, ou traga consequências desastrosas, ela faz parte de uma habitual forma de estar no mundo, de se relacionar com as pessoas e consigo mesmo. E uma coisa é fato: modificar hábitos pede esforço contínuo e incansável dedicação... Essas atitudes de repetição são como pragas de dificílimo combate. Mas difícil não é impossível.

Ontem, uma amiga foi me contar porque decidiu não aceitar uma proposta de emprego e justificou: "seria burrice me arriscar perante o óbvio... Ele é um péssimo patrão para todas, porque seria diferente para mim?" E aí vem aquela velha história da evidência... Burrice minimizá-las. Se aconteceu com tantas porque comigo seria diferente? Ah, porque eu fui sincera e disse isso a ele que me garantiu que comigo será absurdamente diferente, porque eu sou diferente, ou porque ele está se sentindo diferente, ou porque ele está mais velho, ou porque agora ele criou coragem, ou porque agora o filho casou, a mãe morreu, ele aposentou, enfim... Mas ele disse isso para quantas pessoas? 

De início, creio que todos mereçam o benefício da dúvida, seja em que situação for. Ocorre que um dia as confirmações chegam e você entende que essas "falas" são ditas em série, para todos os envolvidos.

Falar é tão simples e fácil não é? E acreditar também. Quando o prognóstico não é favorável vale à pena arriscar? Concluo (por hora): vale o risco, unicamente se ao invés das habituais promessas de mudanças, você for confrontada com reais mudanças. É a única forma. Porque se de todo lado chegam confirmações de que o discurso é enlatado, idêntico, qual seria o critério usado para se concluir que "dessa vez será diferente"? Única forma: ao invés do discurso, atitudes. 

Simples assim. Mais vale nunca mais ouvir um "eu te amo", mas saber que aquela mão estará literalmente ao alcance da sua quando precisar. Palavras são apenas palavras. Deixam um gosto bom, mas não nutrem. Promessas, então! Vou fazer... Vou acontecer... Só mais um pouco... Eu juro. 

Como disse minha amiga, se ele age de forma padronizada (com pequenas variáveis), pare e pense: "porque fará diferente comigo?" O fato é que, enquanto tudo estiver no nível das promessas, não  passarão de remotas possibilidades... Mas se há predisposição em acreditar, aí já é outra coisa. É muito comum se deixar enganar para que o sonho não morra. Para que aquela obviedade toda não liquide com a fantasia. Para uns a ilusão é imprescindível. Para outros não. 

Uma conclusão difícil de ser aceita é a de que os olhos mentem, o corpo mente, o toque mente, e que a única verdade possível está mesmo contida nas atitudes.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: sentimentos - evidências - atitudes


Compartilhe:



10/06/2014 às 08h47m


Inversão de valores

O livro "A águia e a galinha" de Leonardo Boff é uma metáfora da condição humana. A história de uma águia que foi criada junto às galinhas e com o passar dos anos passa a acreditar que era uma galinha de verdade, até que um dia aparece alguém que a faz enxergar quem ela realmente era. 

Eu amo Boff, adoro esse livro e quem não leu, deveria ler, há ali, uma aula de filosofia em todos os sentidos e uma infinidade de lições.

Entre elas está a de que vemos o que queremos ver, ou o que podemos ver, ou o que nos é conveniente ver (porque, continuando com Boff, cada um lê e relê com os olhos que tem). 

Bom, a partir do momento que acatamos essa singularidade contida no olhar, ou na forma de olhar, ficamos cônscios da relatividade, senão dos fatos, da interpretação desses. 

O professor estuprou uma criança de 8 anos. Fato. Ele é um monstro que precisa ser banido da sociedade. Diz a constituição que todo cidadão tem direito a defesa. Ok. Então, esse ser (não) humano terá advogados que adotarão uma linha de defesa e, essa, certamente se dará a partir das bases sociais e familiares lotadas de dificuldade onde, certamente, esse sujeito se criou. 

Isso evitará o trauma da criança que foi abusada? Não. 

Isso faz com que esse sujeito deixe de ser portador de alta periculosidade? Não. 

Fatos são fatos, aceitando-os ou não, em nada serão modificados. 

Mas os pais são culpados pela escolha da escola? Por não terem percebido nas reuniões escolares nada de diferente naquele professor? E as dezenas de outros pais também não perceberam? E a direção da escola também não? Não, porque não tinha nada a ser percebido, porque ele se portava como um professor, provavelmente, atencioso e cordato. Os pais e responsáveis podem ser acusados de uma percepção enganosa? 

Se tem uma coisa que fui aprendendo ao longo dos anos foi sobre essa relatividade contida em todo o universo. Mas busco todos os dias encarar os fatos, ainda que eu os interprete da única forma que posso - com os olhos que tenho e a partir de onde meus pés pisam.

Agora, crer que nada pode passar despercebido, porque para tudo há indicadores e que só não os visualizamos por opção, é exigir uma percepção sobre-humana de pessoas normais. 

Então, se o professor não estuprou meu filho, mas estuprou o seu, é porque eu fui atenta aos sinais e você não? Ou seja, a responsabilidade é sua antes mesmo de ser do estuprador? Isso é uma baita inversão de valores que tem acontecido em larga escala e que colabora para piorar consideravelmente o mundo. Todas as instituições sociais, a meu ver, priorizam e dão muito mais chances àqueles que se portam de forma a prejudicar a sociedade do que os "cidadãos de bem".


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: valores - inversão - sentimentos


Compartilhe:



03/06/2014 às 08h52m


Somos todos dispensáveis?

Como agir quando o sofrimento em um relacionamento a dois, chega forçando a uma decisão, exigindo o uso do difícil equilíbrio entre emoção e razão? 

Como tão bem dizem "existem três verdades: a sua, a minha e a verdadeira".  Sendo assim a relatividade de cada história torna-se inesgotável. Tudo sempre pode acontecer e ninguém saberá dizer qual o melhor caminho. 

Em tese, o problema aparente nunca é, de fato, a questão pontual, pois ele não está dotado de uma importância inerente, mas sim à importância que damos a eles. E quer importância maior do que descobrir que encontrou o amor? Difícil fazer uso da razão... Ainda assim, é coerente e lógico o pensamento de que, antes de aparecer esse amor por quem você está sofrendo,você já existia. É preciso foco para pensar que exterminar o sofrimento que te acomete, é o seu único problema.Quem o causou não importa. Tire o foco desse grande amor e vire-o para você.  A partir dessa decisão você está pronto, seja para ir ou para ficar. Nenhuma questão e nenhuma pessoa merece mais destaque do que você mesmo, ainda que seja o seu objeto de amor.

Li em um blog o trecho abaixo:
"Como podem amar alguém se nem sequer se amam e se respeitam, ao ponto de aceitarem "migalhas" do amor de alguém que não está disposto ao menor sacrifício por vocês?"

O sofrimento vem sempre da ilusão... A ilusão de que agora você escolheu o caminho certo, que sua relação é a ideal, seu homem é maravilhoso e que será amada para sempre. A certeza de amar não te garante felicidade, e muito menos a certeza de que poderá viver esse amor. Aí, você se decepciona, cai do cavalo, e é tomada por outra ilusão - de que se você tivesse escolhido outro caminho, deixado o amor de lado e investido naquele outro homem não estaria sofrendo. E sem perceber homens e mulheres passam a vida toda buscando pessoas ideais para protagonizar relacionamentos ideais. E, todos morrem antes de encontrar, porque a insatisfação não parte do seu par, ela é interna. Se não entender isso, ficará trocando de pessoas a vida toda. 

No mesmo blog li: 
"NENHUM de nós é capaz de suprir o "vazio universal" que habita em nossa essência... Como pode alguém ser o responsável por nossa felicidade ou sofrimento, se estes sentimentos independem do outro? Então, como julgar que outrem dependa unica e exclusivamente de nossa presença em suas vidas para serem felizes? Isto soaria como um "endeusamento" pessoal."

Enfim, no fundo será que somos todos dispensáveis?


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: sentimentos - relacionamento - razão - emoção


Compartilhe:



Todos os direitos reservados a Marcelo Lopes - www.marcelolopes.jor.br
Proibida cópia de conteúdo e imagens sem prévia autorização!
  • Faça Parte!

desenvolvido por: