27/05/2014 às 08h18m


Inquietações

Disse o filósofo Waldo Emerson que "O que está por trás de nós e o que está diante de nós são coisas pequenas comparadas ao que está dentro de nós".

Questionamentos pautaram minha existência, e não imagino como teria sido, se assim não fosse.  Minhas primeiras angústias surgiram, a partir, de um senhor muito idoso que carregava uma imensa cesta de vime nas costas, vendendo biscoitos. Aquele peso, pesava em mim, e mesmo nos dias em que não o via, ele me acompanhava. Ele passou a morar em mim. E muitas vezes, brincando de boneca, eu via aquela cesta imensa em minha imaginação, e ela vinha acompanhada de  porquês - porque tinha que ser assim, porque justo aquele velhinho e não o meu avô, ou o meu vizinho... Conjuntamente veio a descoberta da infinitude do mar, e uma inquietação latente tomou conta de mim, principalmente pelo fato de ninguém conseguir me explicar como alguma coisa poderia não ter fim; e  só fui descobrir, sozinha, anos depois, que simplesmente há coisas que não são passíveis ao entendimento humano.  No primeiro fato descobri o sentimento de inconformidade e indignação, no segundo, a constatação da efemeridade do ser e insignificância perante a Criação. Me aproximei de Deus exatamente nesses dois momentos - com mais ou menos 6 anos de idade. Eu amadurecia, definitivamente. Há caminhos que não têm volta, por mais custosos que sejam, e amadurecer é um deles. Sem saber despertava em mim, a tal da consciência. Continuei assim a vida toda, inconformada, indignada, buscando entender a Criação, Deus, o Universo. A inquietação me levou primeiro a contemplação e a angústia, depois à ação - o caminho exato da filosofia antiga até a modernidade. Angustiar-se perante o desconhecido, contemplar para abstrair e, finalmente, racionalizar o que for possível, para agir dentro de um contexto, quase sempre limitado.

Por longo tempo acreditei que pudesse transformar o que me cercava, não pude. Fiquei mais isolada que nunca, com um sentimento eterno de inadequação perante aqueles que haviam me apresentado o mundo, mesmo que de maneira "torta". Depois encontrei meus guetos, fui feliz, mas acho que de certa forma, improdutiva. Descobri que o coletivo disfarça a inquietação interna. Todas as religiões que experimentei me desviaram do foco, me distraíram do que era fundamental. Em cada uma delas, mais do que perdi tempo, perdi-me no tempo.  Na minha concepção, religião para ser seguida com louvor e obediência precisa, antes de tudo, de um indispensável sentimento de culpa. Disfarçadamente ainda vendem-se indulgências por aí, e, convenhamos, se vende é porque há quem compre. É na solidão que tudo acontece para mim. O autoconhecimento é a chave para o despertar da minha consciência, é onde estamos aptos a viver, verdadeiramente, sem intermediários, o imanente e o transcendente.

Sozinha me reconheço no outro. Sinto o frio alheio. E percebo que  dar o cobertor não é nada, perto do ato de cobrir. A humanidade é quase inerte, ainda não estamos despertos, fazemos quase nada, talvez porque como disse Schopenhauer: Eu posso fazer tudo o que eu quero, mas nem sempre posso querer aquilo que quisera querer.

Ainda somos pouco... muito pouco


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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19/05/2014 às 18h54m


Felicidade não segue padrão

Como posso ser feliz? 
Pilhas de livros de auto-ajuda. Sempre em vão.
Felicidade não é um bem que vamos conquistar se cumprirmos algumas regrinhas básicas. Serão felizes os mais determinados, ou aqueles que meditam, ou os que não bebem, não fumam, não comem carne. A esses grupos, o reino da paz, da harmonia, da sonhada felicidade. Nada disso. 
E aí você casa com o amor da sua vida, têm filhos saudáveis, sua carreira vai muito bem, obrigada. Fez aquela plástica de nariz e a lipoescultura, comprou aquele carro maravilhoso e ainda viajou a dois para esquiar em Aspen... (bom, eu ficaria com o amor da minha vida, filhos saudáveis, carreira, uma biblioteca inimaginável, a compra de um sítio para construção de um asilo modelo, e uma viagem a dois para qualquer lugar que eu ouvisse os grilos e  visse a lua, enfim... felicidade não tem molde). 
Bom, prioridades acertadas: sou feliz! 
E instala-se a terrível decepção. Quem disse que felicidade segue algum padrão? E caso seguisse, quem ditaria esse padrão? 
Tudo é absurdamente relativo. A tal almejada felicidade não "vinga", por uma condição humana. Somos naturalmente faltosos de algo que não podemos nomear por uma questão quase estrutural - incapacidade de silenciar-se, ouvir-se, sanar-se. 
Quem não sabe do que precisa não tem como buscar. É isso. 
As previsões da vida plena de felicidade falham porque não conhecemos nossas reais necessidades, e nos guiamos pelos desejos, daí vem a sensação de falta. Mas objetivamente tudo está suprido, não há falta...  Eu até posso ver a lua do vão da janela enquanto leio Fernando Pessoa, ou... (prioridades respeitadas) até tomar vinho em Paris enquanto olho vitrines... E então... Quem vai levar a culpa por essa sensação de falha, de falta, de ausência? Para cada época uma explicação - desde Platão, passando por Niesztche, Gramsci, chegando a Gikovate ou Shinyashiki, e o final é sempre o mesmo - o coração funciona muito além da razão. Felicidade não é uma conquista dos merecedores. Ela simplesmente é um estado, sei lá como ou porque acontece. 
E, muitas vezes, quando aquela felicidade nos acomete e o coração fica quente, sinalizando que está absurdamente vivo dentro do peito, nos questionamos "quem é essa pessoa que aqui está?" É isso mesmo... Dá-se uma crise de identidade ao vivenciar esse estado de plenitude... Aceitamos a infelicidade muito bem, nos condenamos a seres não merecedores, nos punimos e quando a felicidade chega sem aviso, entramos em uma crise de identidade e corremos o risco de que ela se vá novamente. 
Para ser feliz aí vai uma dica que li e gostei: "Agüente nem que seja por um instante o amor que não se compreende, que explode qualquer cenário, que nos leva a habitar o mais forte que nós mesmos".

Para mim, Vinicius de Moraes dá a definição quase perfeita - A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. É preciso encontrar as coisas certas da vida, para que ela tenha o sentido que se deseja. Assim, a escolha de uma profissão também é a arte do encontro, porque a vida só adquire vida, quando a gente empresta a nossa vida, para o resto da vida.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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13/05/2014 às 07h33m


Eterna interrogação

E a história do amor permanece. Um sentimento que carrega infinitas definições. Nunca acatei nenhuma delas, pela impossibilidade, a meu ver, de enquadrar qualquer sentimento. 

Observo tudo, é da minha natureza, mais aguçada ainda, pela formação em filosofia. Impossível  a mim não observar, analisar, raciocinar com justeza em busca de uma lógica. Já cometi a imprudência de tentar catalogar o amor. Sem êxito. Quando eu pensava "Yes! é isso". Vinha a chuva e molhava minha certeza. Consolava-me saber que a chuva não molhava só a mim. 

Não tenho uma visão cartesiana linear da vida, e confesso que tenho um olhar invulgar sobre as relações de amor. Até porque eu tenho uma singularidade de amar o amor, antes mesmo da pessoa. Nunca soube dizer se isso é bom ou ruim. Egoísta, talvez. 

Há muito tempo li uma frase de Quintana "O amor só é lindo quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser". Em segundos escorreguei no arco íris e cheguei ao pote de ouro... Acabava de achar o significado do meu amor. Do amor que eu amo. 

Enquanto eu crescia por dentro em uma velocidade desproporcional aos meus centímetros, eu imaginava que amaria àquele que roubasse uma camélia do pé, e a colocasse, delicadamente, atrás da minha orelha. Era essa minha terna fantasia adolescente. Com o tempo fui entendendo que os fatos são maiores que os atos, e que a camélia poderia continuar na árvore. Quando meus sonhos eram inversos à vida que se apresentava à minha volta, eu imaginava que me sentiria amada ao me enxergar limpidamente, dentro da retina do outro. Também não foi assim. E o tempo passou. E continuei fiel ao amor, e mesmo nos vários lutos que atravessei, antes de enterrar os que me foram caros um dia, eu arrancava o amor com as minhas mãos, ainda sem esperanças, naquele momento. E eu, então, o limpava e guardava-o novamente em algum canto dentro de mim. Nunca desisti dele. Enterrá-lo significava enterrar-me. 

Sempre que o chão fugia sob meus pés, as cores iam sumindo e a melodia desafinando, eu abria a cortina e deixava o sol entrar. Não podia desistir, afinal, o que eu tinha de meu, que não o amor que eu sempre amei? Segui com ele. 

Depois da camélia, muitos foram meus ideais de amor, até que no pote do arco íris descobri que o amor que eu amo, está no garimpo do ouro do outro que há em mim. Mas fantasmas rondam... E se ele não souber quem é Nietzsche, nunca tiver lido Fernando Pessoa? E se não souber discutir sobre fé e razão, não divagar sobre a alma? Por longo tempo eu disse NÃO! Absolutamente não! Preciso beber o intelecto do outro, ter com quem discutir depois de fechar a última página do livro. Mas tenho presenciado coisas do amor que têm me obrigado a rever meus conceitos.  Não seria melhor fechar a última página do livro e não conversar nada, mas olhar para o lado e ter uma mão que segura a minha?  Será que não posso tudo isso, se aquele que estiver ao meu lado puder me ajudar para que eu me transforme no melhor de mim? Mesmo que ele nunca tenha ouvido falar em evolução da alma e nem imagine o que seja nível de consciência? Será que há coerência possível nesse universo dos sentimentos?


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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06/05/2014 às 17h57m


A inteligência é afrodisíaco?

Há um tempo atrás li no facebook a frase: "A inteligência é o maior afrodisíaco que existe". Concordei totalmente. 
Até que o tempo foi me mostrando que não. A inteligência jamais será o maior afrodisíaco. O maior afrodisíaco que existe é o amor. Digo, o amor, não a fantasia.
Idealizar demais uma situação, nos trava diante da crueza da inevitável realidade, pois por melhor que ela se apresente, dificilmente será como aquilo que foi idealizado. 
Sem problemas, afinal, sonhos colaboram para uma existência mais rica. 
Na imaginação, tudo é perfeito e precisamos dessa fantasia. Mas há de se ter muito cuidado com o tamanho da frustração quando aquilo que atrai, encanta, provoca e excita entra em choque com uma realidade que foi totalmente inventada. E aí aquilo que era afrodisíaco torna-se decepção, tristeza, frustração.
Inteligência tem pouco a ver com alardear conhecimento. 
Inteligência é perspicácia, agilidade mental, agudeza de espírito para transitar das situações comuns às incomuns com autonomia, bom senso, graça, humor. Isso é ser inteligente. 
E, de fato, é afrodisíaco. Mas não tem o poder de sustentar uma relação. 
Inteligência sem o coração oferece alto grau de periculosidade. É arma letal denominada manipulação.
A alma humana se sente atraída por sentimentos elevados, mas a inteligência permite eloquência suficiente para "passar" ao outro uma nobreza inexistente e, a verdade é que reconhecer isso nem sempre é fácil...
Hoje as propagandas de carro afirmam que carros são sensuais, ou seja, até mesmo objetos podem ser estimulantes de alguma forma. Vale lembrar disso antes de fazer uso da boa fé e acreditar naquele príncipe encantado, interessante, educado, bom amante, sedutor, que jura  ter encontrado em você a sua alma gêmea. Ele se mostra como o último dos românticos, e é... Com você, mas também com a metade da torcida do Flamengo.
Alguém disse que "Amar é admirar com o coração, e admirar, é amar com o cérebro".  
É preciso razão para saber se aquele que se ama com o coração é digno de sua admiração. Entendo a sensualidade como a excitação causada pela constatação ou contemplação do que é, de alguma forma, incitante. E isso acontece na imaginação. 
Por mais que o amor não seja passível de explicações racionais, há uma lógica mínima que norteia, senão o sentimento em si, pelo menos o que fazer a partir dele. Caso contrário vira um "vale tudo", onde dor e sofrimento certamente serão constantes. 
É preciso definir o que se quer do amor.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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