29/04/2014 às 06h59m


Tempo, tempo, tempo...

O poder do tempo ainda me causa espanto... 
Não me acostumo com a mágica que se dá no passar dos dias! 
Tudo se ajeita, se encaixa, se reconstrói...
Se enterra, se apaga, se desfaz... 
Um eterno fluir...
E a gente segue, nunca o mesmo, mas ainda assim, caminhante... 
Perdemos a firmeza, tropeçamos, caímos, levantamos, vamos claudicando, até que novamente nos sentimos seguros. 
E ele ali... o tempo...
O sol nasce e se põe em uma rotina irritantemente sistemática, tão diferente da inconstância que é viver. Quando me lembro de algumas perdas, decepções, traições que vivenciei, posso (re) sentir os sentimentos... tanta mágoa, tristeza, susto... tantas indagações... tempo congelado em minhas angústias, e eu podendo jurar que ficaria assim para sempre. Olhava para a cena da minha vida, olhava para mim e era como se um artista tivesse reunido as mãos, pés, cabeça e outros membros de imagens de diversos modelos, cada parte muitíssimo bem desenhada, mas sem relação com um mesmo corpo, uma vez que elas não se adaptavam umas às outras de forma alguma e o resultado era antes um monstro que um ser humano.
Algumas vezes temos nossa vida desfeita. 
Sonhos em cacos. 
Projetos que viraram pó. 
Dias sem poder pensar no significado da palavra futuro. Dias fazendo o parto da dor. 
E aí, um dia passa. E nem nos damos conta de como essa mágica acontece... Parece impossível retomar a boa fé. 
Mas... o tempo se encarrega de levar as sombras, e de repente estamos acreditando novamente. 
Outro risco. Sem molduras, sem contornos, sem a mínima garantia.  Às vezes td sai errado em tempo record... Uma dor agarrada a outra, e a gente gostaria de ter se tornado um palhaço de circo, um andarilho, um capitalista selvagem, ou algo do gênero. 
Mal pode conter a raiva de si mesmo... outra vez a paz roubada. 
Mas existe o tempo. Ele sempre resolve tudo? Não... O tempo, como tudo, só trás benefícios a quem tem olhos para ver. 
E novamente, mas não tão de repente, os dias voltam a ser claros, os encontros verdadeiros, a paz um estado natural. 
Outra vez, são e salvo. 
Bendito seja o tempo, sempre pronto a nos salvar na (inevitável) próxima vez...


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: sentimentos - tempo - vida


Compartilhe:



22/04/2014 às 08h35m


Dor é dor

O tempo é mesmo relativo. 
Às vezes amigo, às vezes, desafeto.
Por motivos alheios que  esbarraram em mim, pensei hoje nos deliciosos namoros de adolescências e seus finais que poderiam, facilmente, ser comparados às tragédias gregas.
Lembrei de um namorado que tive dos 15 aos 18 anos. Terminamos o namoro antes do natal. Desgaste dos anos, descompasso de projetos futuros. Nenhum motivo concreto no qual eu pudesse me agarrar e dizer "pois é seu traidor, fiquei livre de você". Nada de ruim. Nenhuma acusação. Nenhuma mágoa. Cada pedaço de mim guardava a presença dele. Todas as roupas do armário, a almofada na cama, o urso de pelúcia na estante, os milhares de retratos - na praia, no campo, em casa, nos aniversários, nas festas.
Foram três natais, três réveillons, três aniversários, uma formatura, um vestibular. Como pedir que ele desse licença desses lugares todos? Jogando as roupas fora? Doando as almofadas e ursinhos de pelúcia? Rasgando fotos? E fazer o que com as lembranças que estavam na minha cabeça e no meu coração? 
Como foi difícil, meu Deus! 
Achei que fosse morrer, não morri. Achei que nunca mais encontraria alguém tão especial quanto ele, encontrei. Achei que quando tivesse no altar trocando alianças, me lembraria dele, não lembrei. Achei que quando meu primeiro filho nascesse, colocaria o nome que tantas vezes escolhemos juntos, não coloquei. Achei que jamais sentiria prazer com outro, senti. 
E assim, hoje ele é apenas uma doce lembrança. 
Muitas vezes percebo que os 40 anos das pessoas, teimam em desrespeitar os seus 15, minimizando aqueles sofrimentos, como se tudo tivesse sido uma grande bobagem. 
Eu não permito. 
Todas as lembranças, boas e ruins, são muito importantes. Cada uma delas somos nós. 
Nada nem ninguém será mais como foi naquela época. Nunca é. E nem será. A vida voa, e as pessoas tentam acompanhar.
Dor é dor. Transforma, amadurece, enobrece seja lá em que época for. 
Dor de amor é dor de amor com 15 anos ou com 50. 
Separações acontecem para que algo melhor possa chegar.
Não vale à pena manter relações pretas e brancas. Vida é cor.  É preciso ter bem definido dentro de nós mesmos o que queremos e o que merecemos. 
Esse é o termômetro de nossa felicidade. 
Para ser feliz é preciso antes de tudo, coragem. 
Para viver bem é essencial não temer as inevitáveis despedidas. 
Como filosoficamente canta Lulu Santos: "Tudo muda o tempo todo no mundo".


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: dor - sentimento - tempo


Compartilhe:



14/04/2014 às 22h38m


Amor amigo

Porque os relacionamentos de amizade são mais estáveis que os relacionamentos de amor? 

Inúmeras vezes me fiz essa pergunta e ponderei a esse respeito. Raramente as amizades verdadeiras terminam em "divórcio", quase sempre se perpetuam, e o casal de amigos envelhece junto. Parceria de amor deveria ser tão ou mais forte que a de amigos. 

Mas não é. 

Penso que é porque existem amores que não são amigos, enquanto amigos sempre são amores.  

A experiência que só o tempo trás, me permitiu algumas constatações.

Para começar, amigos criam laços,  mas não se acorrentam. Amigos não se sentem proprietários um do outro. Amigos não pedem garantias. Amigos não se cobram por telefonemas que não foram dados, não exigem do outro mais do que eles querem dar. Amigos simplificam a relação. Sabem-se especiais. São seguros quanto ao afeto do outro. Amigos podem ficar à vontade para errar, não temem julgamento, pois sabem que aquela amizade não está condicionada aos seus acertos. Formam um casal de duas pessoas livres. 

Relacionamentos amorosos são um convite a perda da identidade. Para ser feliz é preciso tornar-se um só, acatando ou refutando de forma uníssona, o mundo. Despersonificando, tolhendo, calando o outro, em prol da vida a dois. Nesse tipo de relação, ambos coisificam-se e terminam por ter ali, ao seu lado, uma extensão de seus projetos e não um ser humano. 

Amigos não fingem ser quem não são, nem gostar do que não gostam, viabilizando assim, o poder de conquista (erro fatal). As mulheres, especialmente, simulam a ponto de perderem-se de si mesmas.

Nas relações de amizade, quando um erra corre para o colo do outro, sabendo que será acolhido. Nas relações de amor, quando um erra, corre para longe do outro temendo julgamentos. 

Amigos dividem o outro com o mundo. Amores querem a posse do outro só para si. 

Na amizade há concessão, não sacrifícios, como no amor.

Amigos amam sem antever o que será do outro, futuramente. Amam enquanto o outro ainda está atrás dos bastidores, sem nem se importar se um dia subirá ao palco. 

Amam aquela pessoa torta, errada, defeituosa. 

Amores escolhem. Amigos acolhem. 

Amores pedem promessas que quando não cumpridas dão ao outro o direito de se vitimizar, imputando culpa e remorso naquele que dizem amar. Amigos não. Prometeu e não cumpriu? "Não tem importância... na próxima vez você faz melhor."

Seria tão mais fácil se soubéssemos amar a dois, do modo como fazem os amigos.

A diferença fundamental entre esses dois tipos de casais é o desejo sexual já que amigos não se sentem atraídos fisicamente. 

Enfim, viver um relacionamento a dois, com seu melhor amigo, certamente é o paraíso, mas fazer do seu amor o seu melhor amigo é um empreendimento difícil para grande a maioria, porque quem ama automaticamente acorrenta o outro, tabulando antes de uma relação de afeto, uma relação de medo e culpa. 

"Para amar é preciso transbordar de amor e para compartilhar é preciso ter amor. Quem se relaciona, respeita e não possui." Osho


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: sentimento - amor - amizade


Compartilhe:



07/04/2014 às 23h31m


Um dia cinza

A morte nos faz compreender o inevitável e nos confronta com nossos limites. 
Morrer não é o problema, a morte é a apenas a finalização de uma existência terrena, o grande dilema é que a morte inevitavelmente nos obriga a repensar a vida... 
Que vida levamos? 
Ou é a vida que nos leva? 
Quando a morte vem e arranca alguém de nós, automaticamente ressignificamos a vida, buscamos no nosso interior os valores reais da existência. 
O mundo de hoje é efetivo e não afetivo. 
O valor encontra-se na técnica e não no amor.
Hoje é um daqueles dias em que me sinto reduzido a nada. 
Fico encarando minha insignificância em um mundo lotado de significados que tantas vezes me passam despercebidos. 
O cenário à minha volta parece sintonizado comigo - dia cinzento, sol irritantemente cheio de dúvidas que entra e sai detrás das nuvens brincando com a minha melancolia, não sei se esconde de mim ou por mim. 
E esse dia carregado da mesma rotina chata, me obriga  a continuar. 
A lentidão hoje parece ter tomado conta do universo e aqui ao meu lado tudo passa incrivelmente devagar. 
É sufocante. 
Para piorar tem sempre aquela música que toca em algum lugar distante, mas ondas traiçoeiras teimam em trazê-la até você e ironicamente elas sempre aumentam a sua dor. A dor que você não conseguiu esconder de si mesma. Você, então, deseja ser consumido. E em total desrespeito à sua vontade, nada te consome... 
Nem ninguém. 
E você urge por outra alma que te exploda ou exploda com você. 
E diante de tanta efemeridade tento entender - porque isso insiste em piorar? 
Talvez nada esteja pior... 
É apenas a minha reação perante a morte de alguém... 
É a morte de alguém me forçando a olhar minha vida de frente.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: morte - sentimentos - limites


Compartilhe:



01/04/2014 às 08h42m


Impossível conhecer o outro

Por um tempo acreditei que isso era culpa de quem não se mostrava. Hoje sei que a falha está na incapacidade de enxergar para além do que se quer ver.
Entregar-se é perder-se.
A entrega é um ato de confiança absoluta, e o outro é somente um ilustre desconhecido. 
Na boa fé, você jura que o conhece. E não bastando acreditar conhecê-lo, você ainda tem a ousadia de  reconhecer-se nele. 
Mas quem é ele? 

E aí passa a se enxergar somente dentro dos olhos dele.
Ao confiar você se trai. 
Embarca em um trem cujo maquinista não trouxe referências. 
E você vai...

A deslealdade do outro nasce a partir do terreno adubado por você. 
Um dia  você olha, olha de novo, e não se vê mais ali. 
No outro dia tenta olhar de novo, mas o outro já te virou as costas. 
E você não sabe mais onde está. 
E começa a se buscar em outros lugares que não dentro daqueles olhos onde você mergulhou sem coletes salva vidas.  
Pronto! 

Temos agora um náufrago em alto mar de infinitas mágoas. 
Mas é preciso acreditar que vamos sim, cruzar com pessoas que jamais farão isso...  
Alguém que entenda que o seu direito termina quando começa o do outro...  
Alguém que siga o que disse Jesus: "não faça aos outros o que não quer que façam contigo." 
E enquanto isso, melhor seguir nadando e perdoando a si mesmo e aos que cruzaram o seu caminho. 
Todos professores.

E no dia em que conseguir se salvar desse afogamento poderá, finalmente, ser grata a todos eles.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: pessoa, reconhecer, confiar em si


Compartilhe:



Todos os direitos reservados a Marcelo Lopes - www.marcelolopes.jor.br
Proibida cópia de conteúdo e imagens sem prévia autorização!
  • Faça Parte!

desenvolvido por: