24/02/2014 às 23h57m


Álbum de retrato

Pediu-me que guardasse, por tempo indeterminado, o álbum de fotografias que montou durante os três anos de namoro. 
- Nunca mais terei coragem de abri-lo, disse aos prantos. 
- O tempo se encarregará disso, meu bem". 
Abracei-a forte enquanto soluçava.
Ele havia terminado aquela relação de forma descuidada. Sem arremate algum. Colocou o ponto final sem  direito a interrogações. Com o tempo ela iria superar, mas naquele instante, sua dor exalava, me contaminando. 
Ela uma adolescente, eu uma quarentona. Não percebi diferença entre nós duas. Dormi chorando noites seguidas pensando no sofrimento dela. 
Sempre me penalizei pelas dores de amor. 
Era como um velório. Eu ia diariamente até sua casa e ficava ali - eu e sua mãe, uma de cada lado - mãos dadas com ela. Não falava, não xingava, não reclamava. Só se ouvia soluços entrecortados. 
Tudo baixinho, como as mães gostariam que seus filhos pequenos fizessem. 
Um rio de lágrimas. 
De vez em quando soltava minha mão e enxugava o rosto com um pequeno lenço de linho branco, bordado com sua inicial (aquilo devia ser presente de avó). Eu saía dali moída. Era dilacerante ver toda aquela juventude, o sorriso largo, ainda sem disfarces, conhecendo o fim de um amor. 
Queria matar aquele namorado!(Que por acaso era o meu filho). 
Nunca perdemos contato. Passado anos ela me conta que está apaixonada e muito feliz. Quer saber que dia pode marcar para apresentar-me ao novo namorado. Perguntei se não era hora de pegar de volta o álbum de retratos para guardar como lembrança. 
- Que álbum? Me perguntou.
Ela se esquecera. 
Corações seguem sem olhar para trás. Custa muita lágrima e demora o tempo do tempo. Mas depois vira apenas álbum de retrato. 
Ou nem isso.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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17/02/2014 às 23h24m


Imediatismo do mundo

Antes o mundo me parecia calmo. 

Como nada do que existe está engessado dentro de um significado único, será então que fui eu que perdi a mansidão, e o mundo se agitou aos meus olhos? 

Ao acordar eu sempre espreguiçava, não pulava da cama como se tudo lá fora dependesse de mim para existir.  

Ao deitar eu adorava me perder em pensamentos. Não tinha tanto sono, pois não acordava tão cedo, e ficava sonhando... Sonhos possíveis e outros nem tanto. 

Sempre gostei de imaginar como tudo poderia ser, se não fosse daquela maneira. Tudo mesmo - eu, as pessoas, minhas relações, minhas experiências. 

Reflexão é meu esporte favorito, antes exercitado com tranqüilidade. 

Era possível colher impressões e constatar que no entorno de tudo que me saltava aos olhos, ainda existia um oceano a ser descoberto. E eu saboreava o novo. 

Agora descobrem tudo e já nos entregam em embalagens. 

Estamos encurralados.

Os fins de tarde no outono, aquele clima bom, minhas primas no quintal e o piano da minha avó tocando ao fundo é um cenário que jamais poderá ser desfeito, nem mesmo o tempo e sua pressa serão capazes de apagá-lo. É tatuagem na minha alma. 

O imediatismo do mundo tenta me consumir, e eu, teimosa, vou resistindo.

Antes havia uma cadência no relógio, uma coerência com o tempo. Hoje ele está desgovernado! Ou sou eu que o percebo assim? 

Desgovernei-me então... É uma possibilidade também!

Todas as estações do ano tinham cheiro e eu os sentia tão naturalmente que nem percebia. Só percebi que sentia, quando deixei de senti-los. E posso dizer que me eram essenciais. Eu conhecia as estações sem calendários.

Detalhes se tornaram gigantes tentando roubar nosso tempo que urge implacável. 

Então, nada de se ater a detalhes! A orquídea que se abriu, o beija-flor que bebe água na sua varanda, o arco-íris, os pais já idosos e suas intermináveis histórias, os filhos querendo assistir Discovery Kids com você...

A vontade de tempos calmos invade cada canto de mim diariamente. 

As coisas só possuem o sentido que atribuímos a elas, e a calma do mundo é vida para mim.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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10/02/2014 às 22h55m


Segredos

Ela esconde dentro de si um segredo tão bem guardado que a irrita pensar nele.
Quando pensado, torna-se ameaça. 
É vã a tentativa de escondê-lo acima de tudo, de si mesmo.
Quer fugir do que por vezes sente, e na maioria das vezes, consegue.
Precisa ser assim.
Porque não consegue furtar-se definitivamente dessa sensação?
Queria que fechassem a cortina antes que essas cenas invadissem sua imaginação.
Para afastar-se desse segredo que teima falar, ela precisa afirmar coisas que não sente.
Não é mentira. É só vontade de fazer com que aquilo que diz, torne-se verdade.
Dizem que as palavras têm força.
Será que o silêncio tem mais?
Sua vida é comum. É boa. Chega a ser feliz, quando dá. 
Não é carente. Não é solitária. Boa auto-estima. É amada.
Deveria sentir-se segura. E sentia-se. Até que.
Coisas tão sutis têm o poder de arrancá-la de sua zona de conforto, privando-a momentaneamente de sua paz, derramando sobre ela a pergunta já quase esquecida - como teria sido? 
Tudo em vão.
Sublimado
Racionalizado.
Dispensa surpresas.
Agradece (im) possíveis renovações.
Amassou (quase) todas as lembranças do que nem viveu e lançou longe. Quem disse que ninguém manda no coração? Ela já disse. Não diz mais.
Difícil comandar o pensamento acerca das possibilidades do que não foi vivido.
Mas difícil não quer dizer impossível. Isso é razão.
Portanto, ela segue.
Dizem que ninguém sabe nada sobre o futuro. Ela concorda. E é nessa vaga hora de incerteza que vaza novamente o tal segredo por todos os seus poros.
Ela perde o sossego por uns minutos. Mas logo se desfaz a doce imagem do como poderia ser se já não fosse do jeito que é.
E ela se acalma novamente.
Nada será modificado.
O segredo segue preservado, senão dela, pelo menos dele e do resto do mundo.
Para sempre.
(Tentando não pensar que o pra sempre, sempre acaba)


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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03/02/2014 às 22h41m


Em nome de Deus

Quando fui convidada para ser madrinha do filho de uma amiga, precisei frequentar um curso de batismo. E eu, que sempre lutei contra tudo aquilo que não tivesse algum significado para mim, escutei do ministrante do referido curso, que o batismo na água é essencial para nossa salvação, pois é através desse ato que estamos dizendo a Deus: "serei seu servo e obedecerei seus mandamentos". Mas então quem não foi batizado está condenado para sempre? Jamais será salvo? E, cá para nós, salvo de que? E outra coisa, se só o batismo nos salva para que nos esforçarmos para evoluir no decorrer de nossa existência? Basta batizar e está tudo certo (creio que a mensagem não seja tão simplista, mas aos menos entendidos, é exatamente assim que ela chega).

Quem respeita e auxilia o próximo, mas não é batizado, está condenado? E em contrapartida quem é batizado e chuta cachorro e maltrata o semelhante,  está salvo? 

Obediência cega, não tem valor algum... 

"Então estude a Bíblia"! Me disse uma amiga. 

Após 10 anos estudando em colégio de freiras, convenhamos que foi o que mais fiz. Cresci escutando dizer que a Bíblia é a palavra de Deus. Mas quem disse isso? Foi escrita por homens como eu e você. Alguns dizem que eram homens santos.  Não creio...

Quando eu ia a igreja e era chegada a hora do dízimo, tinha que controlar meu desejo de olhar o quanto cada fiel depositava na "sacola do dízimo", agora ficou bem mais simples, basta ver a porcentagem que cada religião determina que seja cumprida, e buscar conhecer o contra-cheque do fiel.  E ainda ouvi que dízimo é questão de fé... (Só se a fé aqui tornou-se sinônimo de culpa, como acontece desde a época da inquisição).

A igreja é contra o divórcio, e daí? Quem tem que ser a favor é o casal que está infeliz.

Agora se o fiel crê que seguir essa norma é mais forte do que seguir seu coração que está infeliz na relação, é diferente, ele deve optar por ficar casado, enfim, ele fez sua opção. 

O Deus no qual eu acredito nos quer em paz, feliz e acima de tudo, espera que sejamos responsáveis pelos nossos atos. Não é preciso que nenhum representante da palavra de Deus na terra interceda e determine nossos atos.

Considero uma temeridade que simples mortais  acreditem que a palavra que professam em nome de Deus, seja a única lei.

Regras existem para que sejam seguidas, mas para isso é preciso que se acredite nelas de corpo, alma e coração. Caso contrário, você será apenas um robô obedecendo a comandos externos. Em nome de Deus,  igrejas, por exemplo, expulsam pessoas que cometeram o adultério.  Me poupe! Acha que Deus ia perder tempo com isso? Violar a lei de Deus é maltratar o semelhantes, o resto é questão de consciência, preferência, acertos pessoais.

Como uma igreja que prega solidariedade e fala em nome de Deus, expulsa um servo? Ela deveria acolher seus irmãos em Deus,  lhe dar a mão, dar palavras de apoio e jamais os condenar. E,  então, no momento em que o "irmão" erra, são justamente  eles quem vão lhe privar da amizade, da compreensão, e do amor que Deus tanto pregou, expulsando-o?  A época da inquisição já terminou!

Sou muito devotada a Deus. Tenho uma fé que move montanhas, mas não deixo que homem nenhum, tão mortal quanto eu, determine minha vida, seja ele pároco, pastor, papa, ou pai de santo. Meu Deus é diferente...  perdoa, acolhe, claro que Ele cobra, como todo Pai, mas dá a mão quando preciso e me diz todos dia quando o sol nasce e mais um dia amanhece "sinta-se livre". E eu acredito Nele.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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