27/01/2014 às 23h03m


Como esponja do mar

Não canso de me surpreender com a abençoada capacidade de regeneração do ser humano.

Li que a esponja do mar, colorida e de formas exóticas que vive no fundo dos oceanos tem uma capacidade de regeneração tão impressionante que, mesmo se for triturada num liquidificador, consegue renascer.

E não é isso que fazem os corações?

Dor de amor pode ter a intensidade de uma patologia grave. A dor é física, ainda que esteja somente na alma. 

Parece infarto.

Quem nunca experimentou? Você deseja que o mundo pare para você descer. 

As cores desaparecem como em uma magia negra. A vida passa a ser levada no automático. 

Enfim, é como uma morte.

Aliás, é mesmo. Morre o futuro planejado.

Depois do luto vêm as conseqüências e tem-se a impressão de que será impossível se envolver em outros relacionamentos.
 
Até que, gradativamente, como acontece à esponja do mar, tudo em você vai se regenerando. A dor vai diminuindo, diminuindo e ao invés de consumir dias inteiros, passa a consumir somente as noites, e chega o dia em que a dor se dissolve, sendo substituída pela lembrança da dor. 

Essa ficará para sempre.

E aí, um dia qualquer, você se pega acreditando novamente. 

E então, após ser triturada por um processador, você se vê viva.

Outra onda a te "engolir" e você sabe que poderá se afogar novamente. 

Mas já conhece todo o processo, e já sabe que não vai morrer. 

Para recomeçar  é imprescindível enfrentar o medo de descer ao inferno mais uma vez.
 
Melhor queimar do que não sentir nada.

E então, você se entrega. E se arrisca. Porque viver é isso mesmo. 

E no final, a gente sempre renasce. Como esponja do mar.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: regeneração - ser humano - sentimentos


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20/01/2014 às 23h24m


E a gente sempre volta à vida...

Tem sempre um dia que a vida vem e entrega "aquela" dor à sua porta.

Lembro-me que em uma dessas entregas à domicílio que a vida me fez, fui arrastada a um sítio pela turma de "animadores", que são os amigos que ficam ao lado nessa hora. 

Lá, tinha um lago grande e ajoelhei-me à sua beira, mergulhei minha mão na água fria. Quase com medo, olhei e me vi dentro do lago, e, mesmo naquela água tão límpida, meu reflexo estava distorcido. Era a sombra de um futuro que não existiria mais. Havia ainda tanto daquela vida que não seria vivida dentro de mim. 

Os bougainvilles coloridos em torno, mesmo belos, estavam vergados, como eu. O sol se pondo, lindo, rabiscando o céu azul com nuances de  vermelho e rosa, prenuncio de um entardecer de primavera. Tudo ali era de uma cadência que acariciava a alma, tão diferente da minha vida naquele momento, onde eu buscava desesperadamente encontrar uma simetria. 

Sentia-me ferida e frágil. E entendi com o tempo que estar ferida e frágil, geram mais ferida e fragilidade.

Sabia que eu era livre para acreditar nas minhas escolhas (será que elas existem?), e que, o que minhas atitudes mostravam era aquilo em que eu acreditava. Faltava redescobrir no que eu acreditava naquele momento, para fazer as mudanças e recomeçar. Foi o que fiz. 

Em um dia de chuva forte, desci as escadas da minha casa e parei sob ela. Enquanto os pingos grossos e gelados pareciam furar minha pele e congelar meu sangue, eu pedia a Deus que, por favor, lavasse a dor.  

Com o tempo, aquela sensação de imperfeição e inutilidade foi dando lugar a mim mesma e percebi que eu começava meu caminho de volta e relembrei aquilo que sempre defendi - todas as decisões (ainda que limitadíssimas pelo tal destino) nascem daquilo que acreditamos ser, e mostram o valor que damos a nós mesmos.

Eu sabia que em algum lugar dentro de mim estava a verdadeira paz, e que eu não dependia de nada para encontrá-la. 

Admiti meus erros, me perdoei, libertei a dor e me agarrei à crença que tenho de que não há erro que não possa ser corrigido e nem transgressão que não possa ser perdoada, e, nesse momento, voltei a escutar sons, sentir cheiros, ver cores. 
Voltei à vida. 

Ao abandonar a posição de vítima signifiquei aquela dor, ressignifiquei minha vida e segui com a coragem de sempre.

Li certa vez que, em todas as dificuldades, aflição e perplexidade, Cristo chama-nos e suavemente diz: "Meu irmão, escolhe outra vez." 


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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13/01/2014 às 23h33m


Arroz de festa

Há casal que se dá bem em tudo. Ri e chora junto, vida sexual ativa, amor e a grata certeza de que se voltassem o tempo escolheriam novamente seguir a vida juntos.

E tem o casal que "empurra" o relacionamento. Só trocam meia dúzia de palavras quando viajam de férias. Não compartilham nada e sexo é uma obrigação cumprida com dia e hora marcados.

Se o primeiro marido vivesse casos extraconjugais seria estranho não é? Eu acharia. Já o segundo, se não vivesse é que seria estranho. Acontece que nenhum dos dois possui amante mas têm a constante necessidade de auto-afirmação perante outras mulheres, e dessa forma, portam-se como "arroz de festa" – sabe aquela triste postura dos que só fazem barulho e nada mais ? Quando se vêm em um ambiente com mulheres, trocam olhares sedutores, fazem aquela voz de locutor de rádio, falam só o que elas gostam de ouvir e de preferência ao pé do ouvido, mas não passam disso... Não fazem nadinha... E nem tentam fazer! A certeza de conseguir dar "olé" na esposa lhes dão um prazer quase sexual... Pobres! 

Para os que reconhecem esse "defeito de fabricação" basta um bom tratamento psicológico pois deve ser muito ruim precisar sempre da aprovação do sexo oposto (em diversidade!) para sentir-se seguro.

Na vida do primeiro casal não caberia esse tipo de comportamento. Ele é amado, respeitado e valorizado pela esposa e deveria sentir-se pleno. Acontece que a esposa é somente UMA mulher, e ele precisa certificar-se que continua fazendo sucesso com TODAS.

Na vida do segundo casal caberia muita gente de fora, já que não se amam; mas mesmo assim o marido prefere passar a vida nesse joguinho dom-juanesco a comprometer-se emocionalmente com qualquer outra. Ou seja, a ele só interessa brilhar entre muitas, e não o fato de ser importante para uma. 

Insegurança doentia que magoa e destrói. Dificilmente é reconhecida por quem faz, já que justificam essas posturas com um sonoro "não estou fazendo nada demais". E não estão mesmo, para quem entende que "coisa demais" é ter uma vida sexual fora do casamento. Mas para quem acha que certos gestos e palavras são mais ou tão significativos quanto uma relação sexual, aí estão fazendo coisa demais, sim.

Viver correndo o risco de jogar no lixo uma relação de cumplicidade e afeto é uma escolha. Só não deve fiar-se que conseguirá sempre "dar a volta" na companheira pois o bumerangue volta. 

Uma das características desse tipo de comportamento é acreditar que conseguirá se safar eternamente. E, provavelmente, não conseguirá. A casa um dia cai. É assim desde que o mundo é mundo. A companheira pode relevar uma, duas, três, afinal você é o típico e competente sedutor, e vai seduzi-la também por muitas vezes. Mas, como canta Vinicius de Morais - o perdão também cansa de perdoar.

Ah! um recadinho ao "arroz de festa"  - lembre-se que certamente você NÃO É um Johnny Depp e, acredite, que mesmo assim é amado verdadeiramente por alguém. Mas se isso não te basta, pois para você (continuando com Vinícius) o menos vale mais, ok. 


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: sentimentos - cultura - casal


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07/01/2014 às 07h14m


Carta a uma dor

Caríssima dor,

Você deu sinais que arrombaria a minha casa, e eu não vi. Quem viu não me avisou.
 
Mas aqui nunca teve espaço que fosse seu, e nunca terá. Você tem péssimos hábitos - roda para lá, roda para cá e vai lanhando objetos e pessoas, enfiando farpas agudas. Uma hora é o armário que surge sem um pedaço, outra hora é minha carne. Armário não sente dor, sua burra!

Só eu. E sangro. 

Armário só serve para guardar pertences, já eu faço parte e tenho minhas partes em muitos pertences, meus e alheios. 
Ou tinha. Você maltratou minhas certezas. 

Roeu um círculo no chão sob minha poltrona preferida.  Esperou o momento em que lá eu me aconcheguei com algumas certezas e um livro entre as mãos e enterrou seus dentes afiados no último ângulo que faltava. Fomos sugados: o pedaço do chão, a poltrona e eu, distraída, pensando na última frase lida: "quem escreverá a história do que poderia ter sido". Ainda estou em queda livre, agarrada a Fernando Pessoa, sua frase ecoando dentro e fora de mim, sem saber onde vamos chegar. 

Minhas certezas? Coitadas... E olha que eram poucas, muito poucas. Mas eram minhas. Apostei tão alto! Quebraram a banca com apostas de um vida inteira.  Onde foi parar minha fortuna: felicidades, sonhos, projetos? Sei lá... devem estar por aí com a poltrona...Ou estariam com você?  Mas para nada te servirão, enquanto eram meus esteios. 

Proponho um acordo. Não sei se será bom para os dois lados, porque para você nada parece bastar... você espreme meu coração, corrói meu estômago, finca a minha garganta, leva meu sono, rouba minha paz, e só quando molho todo o colchão (porque o travesseiro não lhe basta) é que você me dá um segundo de trégua.  Esses dias você tem sido monstruosamente maior do que eu, me engolindo com facilidade. Não sei se é esse mesmo o seu tamanho. Mas sei que não é o meu. Não sou pequena, não encolho, nem me submeto. Sou forte e grande como um leão. Nem queira conhecer minhas garras. Melhor, então, fazermos o tal acordo. 

Aprendi com você (e para sempre), a não ter certezas. Aprendi a prestar mais atenção aos sinais que chegam silenciosos e aprendi que sou do tamanho que me vejo. Dessa forma, te aceito, te agradeço e te libero. Pode ir. Nosso acordo é que eu não te alimento mais. Nem uma lágrima está ouvindo? Mas te reverencio até o fim, e contarei isso ao mundo todo (será que você é vaidosa? Torço para que sim). 

Reverencio o seu poder, seus sábios e dolorosos ensinamentos.

Por favor, bata a porta após sair.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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