23/09/2013 às 22h46m


Porque liguei a TV?

A morte nos faz compreender o inevitável e nos confronta com nossos limites. Morrer não é o problema (pelo menos, não para mim), a morte é a apenas a finalização de uma existência terrena. O grande dilema é para que fica. 

A morte inevitavelmente nos obriga a repensar a vida... 

Que vida levamos? Ou é a vida que nos leva? 

Quando a morte vem e arranca alguém de nós, automaticamente ressignificamos a vida, buscamos no nosso interior os valores reais da existência. 

O mundo de hoje é efetivo e não afetivo. O valor encontra-se na técnica e não no amor.

Hoje é um daqueles dias em que me sinto reduzido a nada. Ver os noticiários e suas muitas tragédias me causa essa sensação.

Fico encarando minha insignificância em um mundo lotado de significados que tantas vezes me passam despercebidos e que noutras interpreto de modo tão diferente da maioria. 

Há dias em que o cenário à minha volta parece sintonizado com as notícias ruins da TV - dia cinzento, sol irritantemente cheio de dúvidas - fica entrando e saindo detrás das nuvens, brincando com a minha melancolia, não sei se esconde de mim ou por mim. E esses diasestão sempre carregados da mesma rotina chata, que me obrigam a continuar. A lentidão parece, então, tomar conta do universo e ao meu lado tudo passa incrivelmente devagar. É sufocante. Para piorar tem sempre aquela música que toca em algum lugar distante, mas ondas traiçoeiras teimam em trazê-la até você e ironicamente elas sempre aumentam a sua dor que dói em consonância com a dor alheia. Uma dor que você não conseguiu esconder de si mesma. Você, então, deseja ser consumido. E em total desrespeito à sua vontade, nada te consome... Nem ninguém. E você urge por outras almas que te explodam ou explodam com você. 

E diante de tanta efemeridade tento entender - porque isso insiste em piorar? 

Porque liguei a TV?

Talvez nada esteja pior... É apenas a minha reação perante a morte de alguém... É a morte de alguém me forçando a olhar minha vida de frente


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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16/09/2013 às 23h13m


Amor bipolar

"Não amo mais você". 

"Não é mais essa relação sem graça que quero para minha vida". 

"Quero viver com mais emoção". 

"Vou embora"

Mensagem no celular: "Você faz falta."  Chega sem muita conversa e a noite é maravilhosa. Café da manhã compartilhado, e um olhar que diz sem precisar de palavras "com você me sinto tranqüilo".  

À noite, a TV assistida da cama é testemunha dos pés que se tocam. Outra noite. Tudo tão tranqüilo que no dia seguinte você deixa de existir: "Eu já disse que não te amo mais".

E você cansada, toca a sua vida, quando escuta o sinal de outra mensagem no celular "sinto falta de você". Mais uma noite a dois. No dia seguinte não há diferença entre a porta do quarto e a sua pessoa: "Mas eu já disse que não amo mais você". Uma bandeja de café da manhã na cama. "Você é uma boa pessoa, mas não amo mais você". 

Por meses você vive em cima de um "step". Louca para descer. Parece acorrentada – um sobe e desce estressante, dói as pernas, o corpo e a alma. E o outro segue oscilando em uma loucura negada. "Eu estou ótimo. Apenas não te amo mais". A boca que diz é a mesma que beija. "Já sei, você não me ama mais"

Te põe aqui, te põe lá, te joga longe e te trás pra perto, em um amor bipolar do qual você não pode reclamar, sob a pena de ouvir que "você sabia que não era mais amada". A mão que dá tchau é a mesma que te toca. Palavras e atitudes em pontas opostas da mesma gangorra. 

Esperar não é o mesmo que aceitar. Relacionamento normal precisa de  cuidado. Quem não se cuida não pode cuidar do amor. Já percebeu que você também está se tornando um bipolar? Nessa dança ele dá o tom e você "ginga" no ritmo que ele quer – agora é rock, daqui a pouco é samba, depois é funk, e você lá, como marionete. De repente ele te deixa sozinho na pista:

"Não quero mais você como par!" 

"Você não sabe dançar." 

"Você pisa no meu pé!"  

Mais uma vez ele te expulsa do salão. Um dia depois ele te puxa novamente para dançar. Agora é um tango, e você vai.  Adoeceu junto com ele 

Longe de você ele acredita que vai encontrar a felicidade que almeja. Porque bipolares são assim – procuram algo para justificar a infelicidade deles, a angústia deles, a má sorte deles. Se eles vão embora, é certo que se arrependerão. Se ficarem serão infelizes porque não foram embora. É um ciclo vicioso que maltrata todos os envolvidos. Há apenas dois caminhos – ou a doença é aceita e tratada, ou você enlouquece com ele. Ah! Tem sim mais outro caminho – você desiste e vai embora! Definitivamente.E não se esqueça, qualquer que seja a sua escolha, vá se tratar também. Até porque vai chegar o dia em que ele vai ao fundo do poço e vai procurar você mais uma vez. Ninguém sai ileso de uma relação bipolar.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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09/09/2013 às 18h52m


Verdade X Mentira

Se "A" diz que ama sua parceira e a agride fisicamente, ele a ama mesmo? Antes, eu afirmaria que não. Hoje, digo apenas que não sei qual o conceito que "A" tem sobre o amor. Posso dizer que não aceitaria o amor de "A", mas não posso dizer que ele está mentindo ao dizer que ama a esposa.

Qual seria a origem dessa crença na tal da verdade? De onde surgiu essa guerra entre verdade e mentira? 

Segundo Nietzsche verdade e mentira são construções que decorrem da vida em grupo e dos códigos de cada grupo. O homem do grupo chama de verdade aquilo que o possibilite manter-se inserido no seu grupo, e chama de mentira aquilo que o exclui do grupo. A verdade e a mentira são ditas a partir do critério da utilidade ligada à paz do grupo. Assim, atos e escolhas pessoais que entrem em choque com o grupo, por não serem aceitos ou compreendidos pelos demais componentes, nunca são ditas. Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do grupo. A verdade só se manifesta através da palavra, por mais que digamos que os olhos falam, que a respiração ofegante entrega, que o rubor nas faces condena, sabemos que só a palavra tem o poder de negar, afirmar ou confirmar. Mas sabemos também que palavras são metáforas que muitas vezes não correspondem com o real. O complicado ato de metaforizar ocorre no vácuo incerto do impulso nervoso e uma cena.

Enfim, existe verdade absoluta ou o conceito da verdade é algo pessoal? Tenho um amigo que escreveu que a verdade se encontra super valorizada ou corrompida. Concordo com ele.

"B" pergunta ao marido se ele a trai com outra mulher e ele responde que não, só que ele sai com outras mulheres. Ele está mentindo, mas como diz Nietzsche é para evitar expor suas escolhas pessoais para não entrar em choque com o "grupo" (nesse caso a família constituída), e ser expulso. Isso seria o mesmo que aceitar que os fins justificam os meios. E justificam? Pessoalmente, acho que não. Não creio em relacionamento baseado na desconfiança. Mas também não conheço modelo ideal e nem acho que há receita. Acredito em códigos pré-estabelecidos entre duas pessoas que decidem investir em uma relação. Quem quebrar os códigos quebrou a confiança, agora, se nesse código cabe ou não traição ou omissão, isso é uma questão do casal. Ainda assim, o conceito de amor no qual eu acredito, não pede nada disso.

Enfim, para Nietzsche, o homem é o mestre da dissimulação, cuja tarefa específica é metaforizar o mundo em palavras e conceitos, e de ajeitá-lo de modo tal que o permita "existir mais um minuto"...


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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02/09/2013 às 19h00m


Não adianta fugir

Passamos a vida fugindo.

De tudo. De coisas, de pessoas, de sentimentos, de nós mesmos. 

Fugimos a todo custo de ficar sozinho, e para tanto, aceitamos viver relacionamentos sem amor, para só então, descobrir que solidão a dois leva a uma solidão mil vezes maior.

Pagamos caro em cirurgias plásticas para fugir das marcas da idade e comemoramos cada ano de vida que nos traz justamente as marcas que vamos continuar tentando apagar.

Abrimos mão de quase todos os prazeres da vida com o objetivo de prevenir doenças... Mas continuamos nos estressando no trânsito ou ao manter um casamento por conveniência. E ai, mesmo nunca mais tendo saboreado um bela pizza, acabamos produzindo um câncer.

Pais se descabelam buscando uma "fórmula" para afugentar as temíveis drogas de perto de seus filhos, enquanto dentro de casa bebem e fumam "socialmente", desde que esses são bebês.

Trabalhamos feito louco para fugir das instabilidades financeiras, e com isso, a cada dia ficamos mais longe de nós mesmos e daqueles que amamos, e depois gastamos grande parte do dinheiro que guardamos para reaver a saúde emocional que perdemos.

Blindamos carro, subimos os muros das residências, contratamos seguranças para fugir dos assaltos enquanto a mídia manipula nossas escolhas, e como robôs, nos tornamos vitrine ambulantes que aguçam as diferenças sociais, e são iscas para os assaltos dos quais tentamos nos proteger.

Participamos de programas sociais através dos 0800 para afugentar a culpa que nos consome ao ver tanta desigualdade e vamos de encontro a uma miséria pior ainda, ao entendermos, muitas vezes tarde demais, que o que é fundamental dinheiro nenhum poderá comprar.

Quanto mais a donzela foge do seu príncipe, mais forte ele vive em seu pensamento.

Fugimos do novo, fugimos das mudanças, fugimos dos riscos, fugimos de ser e de viver de verdade. Sentimos culpa por tudo. Se falamos a verdade, magoamos. Se mentimos, somos desonestos. Se vivemos de acordo com nossa consciência, somos revolucionários, se seguimos a esperada conduta social, somos infelizes. Se acreditamos no amor, somos utópicos e sonhadores, se não acreditamos, somos frios e calculistas. Não fomos programados para a felicidade... Acostumamos a ouvir que viver é difícil, que todos temos problemas e seguimos confortáveis à situação de "vítimas do viver". E então, fugimos de todas as novas oportunidades que a vida, generosamente, nos apresenta... às vezes por medo, noutras por culpa, por insegurança, por pena. E abrimos mão de quase tudo...

Fugimos do tempo que voa, enquanto a vida esfrega na nossa frente que a manhã já virou noite e que o carnaval já virou outro natal. O tempo não espera que nossos temores passem. E assim perdemos a chance do amor, de uma nova vida, de outro emprego, de outra religião... por temer desarrumar nossos hábitos, nossa rotina, derrubar nossas crenças e nossas "certezas". Por temer, finalmente, encontrar a felicidade.

Quanto mais fugimos, mais perto ficamos daquilo que queremos afastar. Polos opostos são imãs. Então, de um jeito ou de outro, a vida sempre nos encontrará. 

Enfrentar é mais inteligente que fugir. Viver pede alguma dose de coragem, mas ser feliz exige toda coragem.

Fechando com Clarice Lispector: "Tenho medos bobos e coragens absurdas"


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: fugir - sentimentos - medos - coragem


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