26/08/2013 às 20h45m


Nidificar

Descobri o termo nidificar lendo Edgar Morin. Naquele exato momento uma sensação de conforto me envolveu. Inteira eu me assentei encaixando-me pela primeira vez no mundo. Por breve instante evaporou-se minha inseparável sensação de inadequação. Enfim encontrei o que fizera desde que me disseram que tinha crescido - eu nidificava. Passei a vida nidificando. Construindo ninhos. Independente das pessoas eu seguia acreditando que o aconchego era fundamental para haver acolhida. Para cada canto em que morei, fosse grande ou pequeno, garimpava diamantes. Meus ninhos nem sempre foram de amor para os outros, mas sempre para mim. Estar dentro de casa acolhida por aquela cadeira velha que fica na varanda, onde gosto de ler, não tem preço. Não me atenho ao GPS, não me importa a cidade, nem a rua. Sou como passarinho. Nidifico onde decido que vou ficar. Foi isso que fiz com maior competência durante toda a minha vida. Engraçado, ter descoberto isso agora, a partir de um livro. Como não amar os livros?

Ter uma família em volta da mesa, embolada na cama entre casos e risadas é vida para mim. Ainda não me deparei com quem desse, de fato, valor a esse meu prazer em nidificar, e aos poucos finalizo minha tese de que "isso tanto faz". Meus ninhos são feitos para acolher, antes de tudo, a mim mesma. 

Muitas e muitas vezes estendi minha cama com lençol macio sem perceber que tinham retirado o colchão sem aviso prévio. O tamanho da minha vontade em manter o ninho do jeito que planejei me deixou no vácuo inúmeras vezes. Acreditei que tinha nascido para viver em par, e ando me questionando: par para qual parte de mim? Para a leitora voraz? Para a nidificadora competente? Para a enfermeira cuidadosa? Para a amiga leal? Para a visionária contumaz? Para a amante? Para a cúmplice? Para essa parte de mim que ama incondicionalmente? Para meu egoísmo quando estou entre livros? Para minha seriedade que não me deixa relaxar? Para minha sensibilidade excessiva? 

Tirando meu querido "Pessoa", pessoas costumam ser apenas pessoinhas, sempre carregadas de seus passados que são poderosas sombras sobre o presente. Não há par para mim. Não sou melhor que ninguém, claro que não! Apenas sou consciente demais, e isso me impede de fazer de conta, por mais que por vezes seja necessário fazer de conta que estou fazendo de conta. Não sei me sabotar, mesmo parecendo em algumas situações que me saboto. Não formar par com o outra pessoa não significa ficar sozinho, significa apenas lucidez de que há um abismo entre ter alguém ao lado e fazer conjunto com esse alguém. 

É bonito ver pessoas amadurecendo, ainda mais quando elas aparecem do outro lado do espelho... Enfim, apesar dos tapetes que somem por debaixo dos meus pés de vez em quando, eu  nidifico sempre e, grata, percebo que hoje faço isso absolutamente independente do outro. Faço por mim e para mim. O ninho que construo acolhe minhas lágrimas e meus sorrisos. Nidifico com amor.  Antes de tudo, pelo amor que tenho por mim.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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19/08/2013 às 19h07m


Filosofando sobre o arrependimento

Filosofar sobre o arrependimento é usual desde a Idade Antiga. São teorias sem fim. 

Arrepender-se é sentir aquela vontade de ter passado por outro caminho, de ter agido de outro modo, de ter tido outra reação. 

Arrepender-se é, invariavelmente, a negação de um fato passado, sendo assim, é uma negação do presente, já que estou no aqui e agora negando o que fiz ontem. 

Quando penso: "gostaria de ter agido de forma diferente" eu penso também: "gostaria de ser outro", pois se fosse outro que não eu, teria agido diferente. É uma automutilação, pois eu me nego, eu fiz mas não queria ter feito. 

Mas justamente aqui entra a oportunidade - ou pode se deixar enredar pela culpa e atrasar ações futuras em decorrência do medo de errar de novo, ou pode usar o arrependimento como sendo a motivação para fazer diferente a partir da consciência. Essa opção consciente nos protege da armadilha da moral que transforma a vida em fardo. 

O cristianismo cumpriu sua função - "fazer de um povo sofrido um povo altamente moral, capaz de ter regras para a mais dura sobrevivência e, então, deixar a vida para a "outra vida". Moralismos nos conduzem ao sacrifício, já que pede a veneração de algum altar e esses, sempre exigem oferendas. Já uma vida individual obedece apenas a consciência. 

Culpa engessa, culpa é quase um reflexo compulsório, enquanto arrependimento, ao contrário, é consciente -  você se encara sem desviar os olhos e entende que aquele que errou é você, o erro é também você, e aí se acolhe pois compreende que o erro é o reflexo do que fizeram de você, o erro foi o que conseguiu fazer naquele momento, mas não está condenado a fazê-lo sempre. 

Quando você foge à perfeição e se desvia, nasce a oportunidade de vislumbrar um caminho que te permita buscá-la e encontrá-la. Se não tivesse tropeçado, não estaria aqui. Se não tivesse se desviado não teria vivido o que viveu. Nietzsche pregava o amor fati, amor aos fatos, ou seja, o amor pela vida como ela é, a capacidade de viver o destino, e essa teoria denuncia sabiamente que se transformarmos a vida em fardo, será necessário que ampliemos as regras para poder suportá-la enquanto esperamos um mundo sem fardos, ou seja, uma verdadeira armadilha moral.

Até mesmo frente ao destino não escaparemos da máxima "cada escolha, uma renúncia". O grande engano é tentar definir o que é necessário. Necessário é o que não pode deixar de ser. Contingente é irrelevante. Nasce daí o sofrimento... Entendendo que tudo é necessário é possível seguir em paz. Quando você diz "cometi aquele erro, porque eu não poderia fazer diferente naquele momento", você afirma a perfeição de todas as coisas e dá-se a redenção suprema do erro, você transcende ao compreender que o erro não deixará de ser erro, mas é o seu caminho para a perfeição. 


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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12/08/2013 às 19h27m


Primeira máscara

Não sei o momento exato em que lançamos mão da nossa primeira máscara. Talvez na adolescência, onde desejamos ser quem somos e ninguém deixa. Compreensível, vamos descobrindo o mundo enquanto ele nos descobre, e o danado costuma ser implacável. Tente não se enquadrar para ver! 

Os adultos, sempre por trás de suas máscaras, contribuem na confecção daquelas que servirão aos neófitos, geralmente filhos, sobrinhos, netos, enteados, alunos. Particularmente não gosto daquelas de resina, prefiro como no teatro grego, confeccionadas em gesso. O molde não é tão perfeito (mas não é esse o objetivo?), mas na hora de quebrar, fica mais fácil. Ah! Você não sabia? Sim... Uma hora quebra.

Tem também aquelas típicas de carnaval que seguramos nas mãos e a levamos ao rosto ocasionalmente.

Não me recordo do dia em que usei a minha pela primeira vez – talvez tenha sido quando entendi que fazia parte da minoria, não sei. Era muito pequena e o mundo já me soava estranho. E pior, as pessoas também. 

Tentei a máscara de carnaval, mas com o tempo acho que meu braço doeu de tanto que precisei levá-la à cara e depois tirar. Estranhamente acho que eu tinha consciência que fazia uso desse importante instrumento de adequação social. 

Lembro de minha mãe, muito educada dizendo "sorria para as pessoas, elas não têm culpa de seu mau-humor". "E eu? Tenho culpa por elas passarem na minha frente, justo no momento que estou vendo tudo de cabeça para baixo?" 

E foi assim que desisti da máscara de carnaval e optei pela máscara de gesso. Trocava-a como fazia com as roupas, de acordo com a necessidade do que se apresentava do lado de fora. Tornava-me socialmente aceita e seguia interpretando, como todos. Enxergando com os olhos da maioria.

Não demorou muito e a máscara me incomodou. Se antes me sentia indevida aos olhos do mundo, pior era esse estranhamento de mim mesma. Novamente voltei a fazer uso da máscara de carnaval. E sigo com ela.

Hoje o braço já nem dói, uso-a infinitamente menos. Ainda fujo dessa "normopatia" social que me embrulha o estômago e turva a visão, mas para não viver no isolamento absoluto, por vezes lanço mão da minha máscara, e sigo descobrindo que tudo na vida tem a sua utilidade.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: máscara - sentimento - isolamento


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05/08/2013 às 18h47m


Existe uma medida certa?

Cada vez sei um pouco menos, e quanto menos sei, mais busco e quanto mais busco menos certezas me permito. Essa falta de completude me move. Agarro-me ao conhecimento com todos os meus sentidos. Sou obcecada por tudo aquilo que colabora para que eu me torne maior que eu. 

Minha vida voltou-se muito para o universo dos relacionamentos. E me surpreendo do quanto esse oceano é como o próprio oceano: incerto e sedutor. Uma forma de tormenta. Que tem pressa.

A racionalidade diferencia o homem dos demais seres – característica essa que preservou ao mesmo tempo em que condenou a espécie humana.  Razão e emoção não são processos antagônicos, e muitas vezes chegam a ser colaborativos. No amor então, é indispensável essa difícil parceria. 

Geralmente a capacidade de racionalizar é proporcionalmente inversa às delícias de se apaixonar. Não vai aqui nenhum juízo de valor. Até mesmo porque a probabilidade de não sofrer é maior para quem usa o bom senso e a crítica para guiar a expressão emocional. Os menos racionais atiram-se, tropeçam, caem, machucam, mas em compensação... Recebem mais, amam mais e sonham mais.

No amor, quem se guia só pela razão, um dia vai sair em busca do que ninguém poderá devolvê-lo – o tempo que ficou congelado, as emoções não vividas, as luas que não foram olhadas, os abraços que não foram trocados, porque estava pesando e medindo sensações e desejos, com o que lhe era conveniente - por medo ou crença.

"É assim, o tempo: devora tudo pelas beiradinhas, roendo, corroendo, recortando e consumindo. E nada nem ninguém lhe escapará, a não ser que faça dele seu bicho de estimação".

Seria  o amor sempre idealizado? Seria importante saber o que se ama, antes de saber quem se ama, para que quando o objeto desse amor aparecer, você não o permita passar despercebido? 

Vale à pena investir? A razão redireciona e modifica a expressão das emoções. Não sei se isso engessa a espontaneidade, talvez sim. 

Prazer e satisfação são sensações agradáveis, mas tirando essa similaridade, há grande distinção entres esses conceitos – um é só um momento, o outro é uma escolha. Mas para escolher, é preciso se permitir o momento. As emoções são mais rápidas que a razão.

É preciso manter a emoção enquanto ainda se é plateia. Nessa hora é preciso pagar para assistir o primeiro ato. Não sei se é uma escolha inteligente, aliás, nem é uma escolha, é quase um instinto (ou o destino), o ato que leva a subir ao palco.

No momento seguinte é hora de lançar mão da razão. E a partir daí decidir com consciência, se continua ou sai de cena, arcando com todas as dores que isso pode causar. A mesma coragem que é preciso ter para se lançar é preciso ter para se retirar.

Só acho que ninguém deveria se retirar sem antes se lançar. O tempo não perdoa... Melhor o ferimento e suas recordações cheias de vida, do que o vazio repleto da pergunta :"como poderia ter sido"?


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: ferimento - recordações - amor - sentimentos


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