29/07/2013 às 19h22m


Um lindo jardim

Um dia resolveu que ia construir um jardim imenso, a dois. Teve medo. Era preciso muito investimento e as pessoas diziam: você não tem nenhuma garantia de retorno. Não tinha. Mas amava imaginar aquele jardim imenso, colorido, repleto de borboletas, perfumes e cheiro de terra úmida, então, jogaram-se nesse sonho, os dois. Foram anos escolhendo cada muda, afofando a terra, fazendo as covas, plantando, aguando, tirando ervas daninhas. Não se cansavam. Tudo feito a quatro mãos, sem reservas de investimento. O jardim exigia empenho e não desculpava um cochilo sequer; de nenhum dos dois. 

Às vezes aparecia algum inseto intruso, colocavam remédio, e de cócoras iam procurando qualquer vestígio de praga; os dois. Apenas uma vez ela ficou cansada, uma única vez, e por pouquíssimo tempo, o jardim não perdoou. Murcharam as rosas amarelas, suas preferidas. Perguntou ao parceiro porque não cuidara delas - tinha que escolher, sozinho não dava tempo de cuidar de tudo. Ela entendeu que descuidar do seu paraíso poderia ser fatal. E seguiram em dupla.Um dia foi a vez dele. O cansaço lhe abateu e ele deixou de lado o jardim. Ela ficou triste, colheu flores para ele, mostrou-lhe as novas borboletas que  sobrevoavam por ali, contou-lhe sobre uma nova muda de alfazema, e nada. Sentiu-se só. Desinteressado ele disse: "Perdi o prazer de cuidar do nosso jardim. Não sei explicar. Também estou triste. Não queria que fosse assim, mas quero outros jardins. As ervas daninhas que sempre arranquei sem sacrifício, agora me aborrecem. Cansei também dessas mesmas borboletas coloridas que amava olhar. Não aguento mais ver as mesmas variedades de flores que antes me encantavam. Enjoei desses mesmos aromas que durante todos esses anos me faziam fechar os olhos e suspirar. Chega desse jardim." 

Ela resolveu que continuaria cuidando de tudo. Sozinha. Pelos dois e para os dois. Amava o jardim que semearam e cuidaram juntos por tantos anos. Aguentou  por um tempo. Mas .... Pesou-lhe  ficar de cócoras catando as ervas daninhas sozinha. E assim, morreu um lindo jardim.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: medo - solidão - tristeza


Compartilhe:



23/07/2013 às 08h10m


Vida a dois e longevidade

Pesquisadores de uma universidade da Austrália afirmam que pessoas casadas (obviamente entende-se aqui casais que moram juntos) vivem mais.

Lendo a reportagem pude confirmar mais uma vez a relatividade que é viver. Entendo que assim como há uniões que constroem, há uniões que destroem. 

Há o relacionamento destrutivo que deixa os protagonistas à margem da vida, vivendo uma história de amor (?) onde o "foram felizes" nunca fará parte do enredo. Todos os dias há aquela aposta de que as coisas vão melhorar. Até que se entende que aquilo que é passível de uma melhora é resfriado, situação econômica do país, dor de cabeça. Relacionamento não melhora, apenas alterna fases quentes e mornas, como tudo na vida. O que é ruim não vai tornar-se bom. 

Há o relacionamento construtivo no qual os protagonistas conhecem o que é, de fato, viver a dois. Uma história de amor onde o "foram felizes" está sempre presente, mesmo que o "para sempre" não possa estar garantido. Tudo vale à pena todos os dias, e permite tranquilidade frente ao que precisa ser relevado e ao que não saiu absolutamente como o planejado. Relação quando é boa, reinventa-se todo tempo. Até os momentos daquela enfadonha calmaria são terrenos para novas construções. 

Só é preciso muita atenção para não achar que "antes mal acompanhada do que só", porque uma companhia pela metade é de uma nocividade sem limites para saúde física, mental e emocional. A pesquisa aponta que quem é casado vive mais, mas acredito ser óbvio que o adjetivo "bem" esteja implícito antes do "casado". Porque eu posso garantir, sem fazer nenhum tipo de pesquisa, que pessoas mal casadas vivem muito menos do que aquelas que vivem sozinhas.

Enfim, viver a dois é muito bom quando contribui para que a vida de ambos fique deliciosamente melhor. Caso contrário, ficar sozinho continua sendo uma boa opção, pois ninguém é uma companhia tão ruim para si mesmo, que mereça a punição de ser substituída por alguém que lhe cause mal a ponto de contribuir, inclusive, para limitar seu tempo de vida.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: relacionamento - longevidade - vida a dois


Compartilhe:



15/07/2013 às 18h17m


Decepção

Impossível conhecer o outro. 

Por um tempo acreditamos que isso se dá por culpa daquele que não se mostrou. Até reconhecer que a falha está na incapacidade do ser humano de enxergar para além do que se quer ver. 

Entregar-se é perder-se. A entrega é um ato de confiança absoluta, e o outro é sempre um ilustre desconhecido. Na boa fé, você jura que conhece. E não bastando acreditar conhecê-lo, ainda costuma ousar reconhecer-se nele. 

Mas quem é ele?

E passa a enxergar-se somente dentro dos olhos dele. 

Ao confiar demais, você se trai. Embarca em um trem cujo maquinista não veio com referências e muito menos com garantias.

E você vai... 

Muitas vezes a decepção nasce em um terreno adubado pelo excesso de boa-fé. 

E aí chega um momento em que você olha, olha de novo e não se vê mais ali. No outro dia, insiste e olha de novo, e percebe que o outro já virou as costas e se foi. Você, então, não sabe mais onde está. E começa a se buscar em outros lugares, que não mais dentro daqueles olhos onde você mergulhou sem coletes salva vidas.  Pronto! Temos agora um náufrago em alto mar de infinitas mágoas. 

Mas é preciso lembrar que outras pessoas chegarão...  Alguém que entenda que o seu direito termina quando começa o do outro.  

Enquanto isso é preciso seguir nadando e perdoando a si mesmo e aos que cruzaram o seu caminho... Todos eles, sempre grandes professores. 

É aquela velha máxima  - decepção não mata, ensina a viver. 

E ensina mesmo.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: decepção - sentimento - confiança


Compartilhe:



08/07/2013 às 23h19m


Arte da conquista?

Hoje li uma matéria sobre "arte da conquista". Um texto tipo auto - um modelo comum para conquista do amor. Pode? Não pode...

Arte é a maneira de fazer uma determinada coisa segundo as regras e visando obter êxito. Não consigo encaixar isso dentro dos relacionamentos amorosos. Cada pessoa é singular, portador de particularidades e excentricidades, não há preceitos que garantam sucesso na conquista de corações diversificados. 

Quando a paixão invade um dos dois em maior intensidade, é compreensível a ânsia por conseguir arrebatar o coração do outro, garantindo reciprocidade nos sentimentos, mas não pode ser um vale tudo.

Não dá para vestir a camisa do Vasco quando você sempre foi flamenguista doente, nem equilibrar-se em pleno meio dia sobre um salto agulha, trajando um tailleur sóbrio, só porque ele elogia as executivas paulistanas, quando você mora no interior e adora roupas estilo hippie... Nem decorar toda a vida de Bob Marley só porque viu um pôster do referido cantor no quarto dele. 

Uma coisa é você ser apresentada a hábitos e preferências diferentes do seu, e, experimentar e gostar. Diferenças somam na vida de qualquer pessoa. Agora, usurpar o mundo do outro, como se ele sempre tivesse sido também o seu, visando apenas à conquista? Isso jamais funcionará... Ninguém consegue ser o que não é para sempre.

Além do que, esse tipo de comportamento baseado na manipulação é desonesto e doentio e relações saudáveis nunca nasceram e nunca nascerão partindo daí.

Mudar sua forma de ser para conquistar o outro pode até funcionar, mas não sobreviverá por muito tempo. Você não será feliz e consequentemente ele também não.

Colocar a máscara e apresentar-se ao outro, em um ato de passionalidade, te levará ao momento em que você mesmo irá se trair.  Tudo vai por água a baixo e você vai maldizer o outro, sua sorte, seu destino, esquecendo-se que desde o início a única responsável foi você. 

Castelos de amor precisam ser construídos com matéria-prima sólida, construí-los com areia tem aquele velho final conhecido de todos nós.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: arte - conquista - amor - sentimento


Compartilhe:



01/07/2013 às 18h35m


Felicidade

O mundo parece uma pista de corrida onde a felicidade é o prêmio que todos se atropelam para conquistar.

Cada um vê sua felicidade dentro de um contexto que sempre se difere do vizinho, e por ser um conceito individual não há como enquadrá-la, apesar dos milhões de manuais que teimam em ensinar fórmulas para conquistá-la.

Tem um autor que diz que o "anseio é realista quando você parte da premissa de que a pista para a realização deve estar em você". É nessa pista que você tem que correr, as outras são becos sem saída e te levarão a lugar nenhum.

Para ser feliz é inevitável pagar o preço de uma auto confrontação severa. Você tem que assumir a responsabilidade pelo seu estado atual e pelo estado ao qual aspira. Enquanto não tiver consciência disso, vai repetir escolhas equivocadas e continuar infeliz.

Momentos infelizes proporcionam uma compreensão mais profunda das relações entre causas e efeitos e uma percepção de sua força e de seus recursos internos. Mas para isso também é preciso consciência. E nada disso é em vão, o ruim é "errar o mesmo erro". 

Reproduzir escolhas em escala vida afora é viver na marcha à ré.

Todos erram muito até acertar. Faz parte do aprendizado. O ruim é ficar escolhendo as mesmas situações, pensamentos, emoções, relacionamentos, teimando em repetir interminavelmente o mesmo padrão. Isso é improdutivo, não leva a lugar algum e ainda adoece você e contamina quem está a sua volta. 

Sem consciência ninguém se liberta. O hábito pode ser um inimigo poderoso quando decidimos nos livrar dele... Sempre cria raízes profundas e para modificar isso é preciso força, e ninguém é forte se estiver inconsciente de si mesmo. 

Ser feliz é o maior projeto da humanidade e todos acreditam depender de pessoas e coisas para realizar essa conquista. Mas não deveria ser assim. Eu aposto que a felicidade verdadeira só existe a partir de um encontro solitário consigo mesmo. No mais conquistaremos bons e inesquecíveis momentos felizes que podem durar algumas horas ou algumas décadas.

Mas em detrimento de tudo isso, existe uma certeza interna em cada ser humano e que nunca pode ser abandonada que é o desejo que nasce da sensação de que sua vida pode ser muito mais.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

Tags relacionadas: felicidade - sentimento - busca


Compartilhe:



Todos os direitos reservados a Marcelo Lopes - www.marcelolopes.jor.br
Proibida cópia de conteúdo e imagens sem prévia autorização!
  • Faça Parte!

desenvolvido por: