30/12/2013 às 23h46m


Desculpas para 2013

Mais um ano se vai. Mais um ciclo se encerra.

Nada muda quando despertamos nos diversos 01/01. As mesmas contas a pagar, o mesmo saldo bancário, os mesmos problemas, as mesmas coisas boas. Mas o que seria de nós sem essa ilusão de que o ano novo é novo em possibilidades?

O Universo é perfeito. Os ciclos, mais do que possibilitar, facilitam a existência de toda a criação. Um novo dia, uma nova semana, um novo mês, uma nova estação, um novo aniversário, tudo incita a renovação. Impulsiona o desejo de mudanças. Traz coragem. Ainda que saibamos que nada muda se não mudarmos.

É uma ilusão necessária. 

Viver em fatias é mais fácil.

Esse fim de ano não fiz planos, nem promessas. Ainda não olhei para frente porque precisei voltar alguns passos atrás. Não tenho como incorporar esse espírito de "novo tempo", quando ainda paira uma egregora negativa de um tempo tão conturbado. 

Tentei sair de mim o máximo possível e lançar sobre tudo que vivi, um olhar "de fora", o que me permitiu pedir desculpas para 2013 e compreender o óbvio: vivi o que tinha que viver, protagonizei as situações que tinha que protagonizar, estive com as pessoas que tinha que estar, minha vida esbarrou em vidas que teria mesmo que esbarrar. 

E, agora, consigo ser grata por isso. Se sei que nada é por acaso, então, porque a raiva? Porque a guerra?  Chegar essa conclusão me libertou. Só me resta agora, pedir perdão. 

Torço para que meu pedido de desculpas chegue a todas as pessoas que acho que precisam chegar. Aos mesmos olhos que leram minhas palavras rudes. 

Peço desculpa pelos momentos em que a soberba tomou conta de mim. Peço desculpa pelas omissões. Pelas farpas jogadas. Peço desculpas por ter sido conivente. Peço desculpa pelas vezes que esqueci que o coração que bate aqui, bate aí. Que a dor que consome aqui, consome aí. Que a vitória aqui significava a derrota aí. Peço desculpas pelas tantas vezes que me vitimei esquecendo do contrário: que a derrota aqui era nada mais do que a vitória aí, ou em algum outro lugar. 

Enfim, peço desculpas por ter fingido acreditar que desse lado aí morava gente do mal, enquanto dentro de mim eu sempre soube que aí, como aqui, era gente do bem. Peço desculpas pela guerra de palavras, pela guerra de nervos, pelas variadas guerras, que como toda guerra, foi em vão. 

Outras dores profundas me cortavam sem piedade e, então, me agarrei a essa dor menor para me "distrair", esquecendo-me que a dor que para mim era menor, era maior para outras pessoas, assim como maior era a dor da qual eu tentava me distrair. 

Também preciso desculpar a mim mesma, pois sei que perdi, pois de onde poderiam ter sido trabalhado bons sentimentos, nascido verdadeiras amizades e colhido boas energias, tornou-se nada mais do que o cenário mórbido de um antigo campo de guerra - feio, frio, vazio.

Sinto que perdi tanto tempo e fiz com que outros perdessem... Nada me convencia, era tudo tão sombrio, e ainda assim eu fiquei. Como diz uma amiga "não aprecio momentos em tons pastéis, prefiro os de tons vibrantes, verdadeiros..." Mas ainda assim, insisti.

Conto sempre  que bons corações se reconhecem, ainda que essa percepção esteja circunstancialmente embotada. Fica aí a minha esperança.

Enfim, que toda essa embarcação de 2013 me perdoe e ancore em terras de bons sentimentos, com tons vibrantes, onde novos afetos possam chegar.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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23/12/2013 às 20h41m


Quem é casado vive mais?

Não é a primeira vez que leio pesquisadores que afirmam que pessoas casadas (obviamente entende-se aqui casais que moram juntos) vivem mais.

Lendo a reportagem, pude confirmar mais uma vez a relatividade que é viver. Assim como há uniões que constroem, há uniões que destroem. 

Há relacionamentos destrutivos que deixam o casal à margem da vida, onde o "foram felizes" nunca faz parte do enredo. A infelicidade parece estar na raiz. Todos aposta-se que as coisas vão melhorar. Até que se entende que o que melhora é resfriado, situação econômica do país, dor de cabeça. Relacionamento não melhora, apenas alterna fases quentes e mornas, como tudo na vida. O que é ruim não vai tornar-se bom. E quando entende-se isso, tudo já clama por socorro. Triste experiência a de viver no vazio.
 
Há relacionamentos construtivos onde se conhece o que é, de fato, viver a dois. História de amor  onde o "foram felizes" mantem-se presente, mesmo que o "para sempre" não possa estar garantido. Onde tudo vale à pena todos os dias, e permite tranquilidade frente ao que precisa ser relevado e ao que não saiu absolutamente como o planejado. Relação quando é boa, é boa, e por si só, reinventa-se todo tempo. Até os momentos daquela enfadonha calmaria são terrenos para novas construções. Divide-se tudo com aquele com quem você soma. 

Realmente, uma relação de parceria, onde há uma mão sobre a outra, abraço apertado naquele momento difícil, um "confio em você" quando o mundo parece desmoronar é mais eficaz do que qualquer tipo de medicação. 

Só é preciso muita atenção para não achar que "antes mal acompanhada do que só", porque uma companhia pela metade é de uma nocividade sem limites para saúde física, mental e emocional. A pesquisa aponta que quem é casado vive mais, mas acredito ser óbvio que o adjetivo "bem" esteja implícito antes do "casado". Porque eu posso garantir, sem fazer nenhum tipo de pesquisa, que pessoas mal casadas vivem muito menos do que aquelas que vivem sozinhas.

Enfim, viver a dois é muito bom quando contribui para que a vida de ambos fique deliciosamente melhor. Caso contrário, ficar sozinho continua sendo uma boa opção, pois ninguém é uma companhia tão ruim para si mesmo, que mereça a punição de ser substituída por alguém que lhe cause mal a ponto de contribuir, inclusive, para limitar seu tempo de vida.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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16/12/2013 às 23h08m


Bendita inquietação

Ainda muito pequena, passando férias no litoral, perguntei a alguém onde o mar terminava. A consciência de sua infinitude foi o gatilho da minha inquietação, que permeia, desde então, a minha caminhada.

Universo, Deus, vida e morte... 

Raramente consegui respostas satisfatórias – livros e mais livros, filmes, templos, religiões, pessoas especiais.  Poucas foram as coisas que não chegaram a ser objeto de dúvidas para mim - existência de Deus, de outros mundos, a natureza, a imortalidade da alma e suas reencarnações.

Nunca fui um exemplo de racionalidade, mas sempre tive em mim a certeza de que há no mundo milhares de coisas que a ciência jamais explicará.  Não por incompetência, mas por falta de tecnologia que possa apreender "coisas" que estão além da matéria. 
Assim entendo.

Minha vida foi de insatisfações. Sempre. Tinha poucos momentos de trégua. A inquietação me incomodava inteira, como o grão de areia que se enfia no corpo mole da ostra causando-lhe dor, impulsionando-a na criação de algo firme que aliviasse sua dor.  
Assim, fui criando minhas pérolas – alguns poucosalicerces que não me deixarão jamais. 

Mas aconteceu, uma ou outra vez, que deixei que a inquietação fosse embora.  Senti vontade de me dedicar ao nada. A fingir que bobagens cotidianas e coisas efêmeras me bastariam.E ficava quieta por um tempo, vivendo não aquilo que realmente era significativo para mim, mas o que era idealizado por uma multidão por aí. 

Mas............... Como o universo é perfeito e nada acontece em vão, descobri que  decepções e frustrações só existem nas relações estritamente humanas, que a efemeridade não ocorre quando a busca é pessoal - a única que é verdadeira e eterna. Assim, depois que me frustrava ao confiar em um mundão de fantasias que as pessoas teimam em criar como forma de  disfarçar o peso da existência, voltava a tentar produzir pérolas. 

O caminho do meio é uma das minhas buscas e sinto por não conseguir atingi-lo. Ainda. Sempre troco "isso" por "aquilo", e muitas vezes o correto é manter-se entre "isso" e "aquilo"...

Li em um livro que "não encarnamos neste mundo para espreguiçar ao sol, mas para evoluir e servir ao mundo segundo o melhor de nossas capacidades. Quem agir assim, conscientemente, encontrará a felicidade".  

E essa felicidade é o meu objetivo, sem fugas. Transitando no mundo material, mas com consciência de que viver é muito mais do que isso que vemos por aí. Seja sempre bem-vinda essa minha inquietação. 


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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09/12/2013 às 20h22m


A rã e o escorpião

A rã e o escorpião é uma fábula escrita por Esopo no século VI aC. Eu era menina a primeira vez que a ouvi e,  meu coração puro, não me permitia entender como alguém poderia causar mal a uma pessoa que estava apenas lhe auxiliando.  Em várias ocasiões da minha vida, fiz dessa fábula uma reflexão para, finalmente, agora entender que uma ação depende de algo muito mais intenso do que simplesmente a vontade ou a força dessa vontade.

Segundo o conto houve um incêndio devastador na floresta, matando centenas de animais, muitos deles carbonizados, outros afogados ao pularem no rio no afã de salvarem suas vidas. O escorpião avaliou rapidamente os pós e contras enquanto olhava várias rãs que agilmente atravessavam as águas do rio, e, decidiu, então, propor a uma delas que salvasse sua vida. A rã,  temendo pela sua existência explicou os motivos óbvios pelo qual temia aceitar aquela proposta, afinal, o habitual é que o escorpião a picasse e ambos fossem levados ao óbito.(A tal da evidência). O escorpião rebateu seu argumento, dizendo que se estava justamente pedindo ajuda para se salvar, como poderia querer matá-la se, invariavelmente, sem ela para lhe levar, ele morreria afogado? (Intenção X Impulso) Enfim, a rã se convenceu, afinal, não haveria mesmo razões para que o escorpião implorasse pela sua ajuda se tivesse o intuito de matá-la.(Vemos o outro através do que temos dentro de nós). Tratado o acordo, o aracnídeo subiu nas costas da rã e navegou tranquilamente pelas águas por um período... de repente, o contato com a pela macia do corpo de sua salvadora, inquietou o escorpião que tentou se distrair observando a rã nadando, a água e a outra margem do rio, onde finalmente estaria seguro. Mas, algo deu errado "em seus planos", e em um impulso fora de controle, ergueu sua calda e picou a rã, morrendo os dois afogados. E ele estava à beira de ser salvo...

E assim somos... portadores de gestos irracionais, impulsos descontrolados, atitudes impensadas... tudo parece sem fundamento, apenas ações julgadas como levianas, irresponsáveis, desumanas, mas não é assim... A maioria dessa atitudes são amparadas por um inócuo instinto, ou regidos por dogmas e crenças não questionadas, e também por uma série de heranças, e como toda ela, inerente. Mas o inerente pode ser negociável. Ou não? Bom, o que me alegra nessa fábula é a certeza de que a essência é maior que tudo, não fosse isso, o escorpião não teria matado a rã. Portanto, resta uma grande esperança para as boas essências humanas, confirmando que, o modo como agimos, nem sempre define quem somos, e isso é um alento. 

A arte repete a vida, e essa fábula está aí em todo canto.  É muito difícil escolher um caminho a seguir, não sei quando fui escorpião, mas sei as vezes em que fui rã (mas nem por isso vítima). Creio que ainda desempenharei algumas vezes esses papéis durante a minha vida, e talvez o correto, fosse desempenhar o papel da rã, apenas uma vez, para nunca mais se permitir repeti-lo, afinal, para que serve a razão? Sinceramente, ainda não descobri... Só seique ainda serei rã dezenas de vezes, primeiro porque não deixo um semelhante (por menos semelhante que seja) pelo meio do caminho se posso acolhê-lo, e segundo porque só se vive, vivendo.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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02/12/2013 às 20h06m


Cardápio virtual para o amor.

Li hoje uma reportagem sobre o promissor mercado de sites de relacionamento que está por aí, a serviço do amor. Eu sou sabidamente uma defensora dos relacionamentos virtuais, primeiramente por uma questão pessoal, já que amo antes de tudo, aquela famosa "beleza interior", e depois por uma questão prática e geográfica, já que abrange um leque maior de possibilidades.

Mas percebo que esses sites já embarcaram nessa ignóbil "viagem capitalista", e no afã de atrair mais clientes, vão criando compulsivamente serviços diferenciados, perdendo sua mais nobre função - a possibilidade de reconhecer-se no outro, antes de conhecê-lo em detalhes. Racionalizando, enquadrando, objetivando o que deveria ser apenas sentido.  Os sites hoje, são verdadeiras vitrines humanas. Os candidatos passam por uma profunda anamnese onde nem mesmo aquela tatuagem feita na adolescência, escapa. Oferecem um minucioso cardápio onde é você mesmo quem monta cada item que deve compor a pessoa que você desejaria amar. 

Pode isso? 

Pode, aliás tudo pode, mas perdeu o significante e o significado. Tornou a busca vazia. Assassinou o sentido, literalmente e factualmente. 

Cor do cabelo, peso, altura, renda mensal, cor da pele, religião, preferência musical... Tudo lá à disposição. Basta escolher. Um convite ao preconceito. Eu já não seria mais candidata a esses sites, porque a única coisa que tem o poder de me conquistar,  não tem cor, não tem sexo, não tem peso, nem altura. 

A sensibilidade, por exemplo, que eu poderia expressar em uma frase escrita durante um bate papo,   nunca iria ocorrer caso o candidato em questão, tivesse optado por uma mulher sem tatuagem. Na contra mão do que é objetivado, esse  rol imenso de possibilidades, impossibilita o verdadeiro encontro. É vedado o reconhecimento. E porque aquela pessoa não tem o mestrado exigido no seu "cardápio" você perde de conhecer uma alma nobre. E porque o outro não tem a renda mensal que você explicitou em seu "cardápio", você perde de conhecer um ser humano inteiro.

Em meio a tantas exigências você está se fechando  dentro de seus próprios dogmas e crenças, ou seja, rodando em círculo. Buscando semelhança em excesso e abrindo mão do grande aprendizado contido nas diferenças. Um atraso na evolução de todos nós. Você se protege e deixa de experimentar. 

E mesmo que tudo dê errado, o que vale é olhar para trás e certificar que de tudo, fica uma história que enriquece a vida. Dor de amor, todos vamos passar. Decepções, frustrações, mágoas todos estamos sujeitos, mas o que vale é o que ficou de belo e verdadeiro, daquilo que não pode mais ficar. 

"Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
nãoteologa mais." (Adelia Prado)


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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