25/11/2013 às 19h16m


Saudades

Saudades do abacateiro da casa da minha avó. Lá ficava a rede onde deitava para olhar o céu estrelado morrendo de medo da noite. 
Não sei porque temia o escuro. 
Adoro o escuro. 
O cheiro de fim de tarde adocicado que exalava das florzinhas roxas e brancas do pequeno pé de manacá. 
O vento morno. 
Meu avô dando corda no relógio antigo. 
O som do piano da minha avó, e eu. 
Saudades de mim. 
Cresci ali. Morava com meus pais, mas crescia só ali. 
Na biblioteca enorme, com escada para ter acesso as últimas prateleiras. O Primo Basílio lido em um fim de semana. "Minha filha, assim você prejudica as vistas". 
Saudade de não desconfiar das pessoas. 
Saudade de um tempo onde não conhecia as decepções. 
Saudade de nunca ter sido magoada. 
Saudades do balanço daquela rede.
Saudade do colo da minha avó, das suas mãos nos meus cabelos: "A vovó já está vendo você daqui a alguns anos, uma mulher inteligente, corajosa e muito feliz."
Vieram as rasteiras da vida... 
Tantas vezes eu, no lugar certo, e ainda assim, desviavam de mim. 
Em quantas encruzilhada, fui deixada. Tomei poeira no meio do caminho. Mas todas as vezes, enquanto buscava o retorno, aproveitei para olhar a natureza em volta. 
Nas vezes em que desisti, foi somente no último minuto.
Saudades de quando eu só tinha medo da noite. 
Saudade de acreditar nas doces profecias da minha avó.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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19/11/2013 às 08h29m


O teste da depressão

Não sei como nem porque aconteceu. Aos poucos, eu que dormia como um anjo passei a dormir cada vez menos. Depois a novela de época exibida às 18hs que eu adorava, deixou de me interessar. Lia a biografia de Che Guevara sofregamente, fechei o livro na metade e não abri mais. Nada prendia minha atenção. Não ligava mais o som quando chegava do trabalho. A palavra concentração evaporou-se do meu vocabulário. Não tinha lugar, nem posição, nem sossego... Eu não cabia mais em mim. Tudo que comia me fazia mal. Parei de comer. Eram duas ou três maçãs ao dia. 

Repentinamente, eu, naturalista de carteirinha comecei a ir a médico quase diariamente. Sentia tudo de ruim, por dentro e por fora. Por dentro eu sublimei, e por fora me submetia a exames sem fim. E, nada. 

Era uma tortura solitária e que me minava a conta gotas. Olhava para meus filhos com saúde, crescendo lindos, minha casa,  mesa farta, um amor que me fazia feliz, e tentava entender aquele sofrimento. 

Um dia não dormi, veio outro dia e não dormi também, chegou o terceiro e nada. Sentia um sono imenso, mas não desligava "algum botão" em mim. Cedi ao comprimido de calmante nunca antes experimentado, acreditei que fosse dormir por 24hs. Mas não fez efeito... Desse momento em diante a luz se apagou. 

Eu desaguava ininterruptamente, como se aquela água toda fosse esgotar minha dor. Tinha consciência de tudo e buscava um motivo que justificasse. Não encontrava. E me consumia ainda mais por isso. Dilacerava-me de tanto sofrimento, e não encontrava a razão.

É incrível a sensação de um mundo preto e branco. De nada ter sentido, de tudo o que "era" deixar de ser. Eu me via no meio no nada. Um vazio sem precedentes. Percebia as pessoas em volta aguardando uma reação e não suportava a expectativa em relação à minha ressurreição. Ouvia "vai passar... vai passar..." e me agarrava àquilo como náufrago em alto mar. Passados uns dois meses, senti o paladar de uma torrada e dias depois, me peguei cantarolando enquanto tomava banho. Impossível descrever o que senti nesses dois momentos. Retornava lentamente à vida. 

Muito tempo depois, um ano talvez, senti forças para me reinventar. Ninguém é o mesmo após tanto sofrimento. Ao reconstruir-me o fiz em base sólida e com material resistente que provavelmente eu não teria acesso antes de passar pelo doloridíssimo "teste" da depressão. Agradeço a Deus por isso.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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11/11/2013 às 20h24m


Se você não dá flores, dê abraços

No dicionário uma das definições de relacionar é estabelecer relação ou analogia entre coisas diferentes.

Conviver com as diversidades exige empenho. 

O fato de amar o outro não suplanta as diferenças, por vezes sutis, que tanto dificultam o romance. Viver a dois exige extrema dedicação. Amar pede além do amor.

Tantos parceiros solicitam frontalidade quando eles próprios não se encaram no espelho. Pedem verdade que são incapazes de oferecer.

Relacionamento é uma via de mão dupla. Quando há acesso obstruído e um dos dois continua tentando prosseguir, sempre encontra um atalho porque o amor é teimoso. Mas o esforço constante esgota o ânimo daquele que luta para manter o caminho transitável. Um belo dia, quem garimpava gretas, cansa-se, e o fluxo é definitivamente interrompido. É o fim.

Amor não sobrevive no vácuo. Perde o viço por falta de alimento.

Se você gosta de sentir-se importante para o outro, porque ele não gostaria de sentir-se especial para você?

Ninguém é dotado de um reservatório que lhe permita só doar sem beneficiar-se.

As diferenças para sempre existirão, mas há coisas que são básicas – quem se dedica quer dedicação. 

Existem certas obviedades no amor.

Levante os olhos para além do seu próprio umbigo. Há vida em torno de você

Quando quem era só amor diz "findou-se" ele sente-se, antes de tudo, incapaz, e é o primeiro a sofrer. Por anos esteve de lupa em punho, perseguindo frestas para a luz entrar, abrindo fendas por onde passar mantendo viva a relação de um só, teimando que era dos dois. No amor, sozinho, nunca se vai longe

Todos estão preparados para ser amados, mas nem todos estão para amar. 

Se aqui você reconhece  seu parceiro (a), pare de adubar solo infértil. Siga por uma via de mão dupla. Você vai encontrar alguém vindo em sua direção.

Se você preza a sua história de amor, fique atento. Não caia na cilada do hábito e do tempo. Nada resiste à falta de cuidado. Nunca haverá garantia, nem terreno totalmente sólido. Nada  permanece para sempre seu, a não ser que você se dedique para isso. 

Gestos dizem muito...

Não importa se você não gosta de dar flores, dê abraços.

Como cantam por aí: 
"Cuide bem do seu amor
Seja quem for..."


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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04/11/2013 às 23h04m


Mudanças

Tenho mudado de opinião com certa constância ultimamente. Confesso que isso não me agrada. Será que estou ficando finalmente madura. Ou não? 

Pensava coisas que não penso mais, acreditava naquilo e desacreditava  nisso, hoje me vejo invertendo as próprias crenças... 

O que defendia, hoje duvido. Que houve comigo? Não existe verdade absoluta, sempre disse isso. Mas as minhas, de certa forma, eram. 

Antes amava o inverno, hoje me sinto melhor no verão. Blues? Saco aquela batida uniforme. Hoje, leio ouvindo blues. 

Não gastaria tempo e dinheiro cuidando dos bichos como se fossem filhos, em um mundo onde crianças passam fome. Meu cachorro dorme no meu quarto, e sabe quando estou triste. 

Conceitos mudam como tudo na vida. 

Acreditava que eu era só espinho, e ando ofertando flores sem quê nem por que. 

Brigava muito, ando apaixonada pelo silêncio. 

"Não preciso provar nada pra ninguém" e vivia exausta, de tanto tentar provar...agora não. 

Não me desafio mais. Me aceito e também aceito quando me condeno. Não coloco mais minha humanidade à prova. Sou apenas isso. Mesmo às vezes me considerando tudo isso. 

"Concessões entre um casal só se for em igual proporção!" Não é bem assim. 

"Só fazem conosco aquilo que permitimos." Tantas vezes permitimos, mesmo sem querer. 

"Quem gosta não magoa." Magoa sim, e gosta também. 

Peço mais desculpas do que antes. 

Aceito melhor a inconstância das relações, de qualquer natureza.Tenho perdido minha rigidez.

Ainda não sei se terei ônus ou bônus. Acredito que os dois.  

Tenho sentido mais segurança dentro da minha insegurança. 

Encontrado paz em minhas tormentas. 

Descoberto alegria onde não via. 

Defendia a liberdade, mas queria controle do mundo. 

Encontrei coragem e abri as duas mãos.

Em meio a imensas faltas de escolha, a vida permite movimentos. 

Ainda bem...


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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