28/10/2013 às 20h20m


Amor

Nenhum sentimento é tão cantado, falado e discutido quanto o amor. Artistas, pessoas anônimas, jovens e idosos mantêm esse tema em absoluto destaque, desde que o mundo é mundo.

Tentar definir o amor é o mesmo que buscar aprisionar o vento. Aliás ao definir qualquer coisa, sempre corremos o risco de engessar possibilidades. 

No famigerado tema em questão, a possibilidade é descobrir o que lhe desperta esse sentimento que, diga-se de passagem, continuará inexplicável. 

No relacionamento a dois, trazer para o campo da razão os motivos que possibilitaram o nascimento do amor permite uma rica descoberta de si mesmo. Inclusive uma fundamental - o que permitiu nascer, pode não sustentá-lo. 

Parte daí muito da infelicidade dos casais.

Particularmente, o que me faz amar é admirar e confiar. O que sustenta o  "meu amar" é seguir admirando e confiando. 

Dizem que há amores que nascem no campo da visão, outros na conversa, outros na cama, outros na conveniência, e por aí vai. 

O amor como eu o concebo nasce de alma para alma, mas devo fazer parte de um gueto em extinção. 

Mas independentemente de onde tenha nascido o amor, para que se mantenha é preciso um renascer diário.

Há pessoas que amam aqueles que representam a figura paternal - cuidam, pagam as contas, e até educam. Outros, ao contrário, amam os que se portam como filho. Alguns amam carregar o cobiçado troféu e desfilar com aquele homem/mulher deslumbrantemente lindo e desejado. Outros amam aqueles "fazem tudo", que desempenham desde a função de encanador até a de médico. Outros amam aqueles que lhe perguntam "quem é mesmo o presidente do Brasil?", e não sabem sequer o valor do salário mínimo (talvez pelo fato de lhes permitir estar sempre em destaque). 

Outros amam quem tem pele de pêssego, ânimo de torcida de futebol americano, carinha de anjo, cabelo de seda. Mas... com a condição de que mantenham tudo isso para sempre! E, como isso é impossível, entende-se que esse é aquele ou aquela que trocará de par eternamente, esquecendo-se que pessoas normais envelhecem. Costumam ser aqueles (as) bobões que seguem pagando (literalmente) para ter ao lado a almejada pele de pêssego, mesmo quando a sua pele já for um maracujá de gaveta. 

Há aqueles que precisam se auto afirmar constantemente, e não se contentam com uma estável companheira, e sim com variadas e efêmeras companhias.

Amor é um sentimento universal, mas singular. Nasce em solos completamente diferentes. Ao reconhecer seu "tipo de solo" a chance de colher um belo fruto é muito maior.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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21/10/2013 às 19h52m


Amor ordinário

Gosto muito da escritora britânica Lisa Appignanesi, e concordei totalmente com suas ideias sobre "os prazeres do amor ordinário".

Como diz a autora "é preciso encontrar excitação na familiaridade." "Não quer dizer que devemos ficar com a mesma pessoa a vida toda. Hoje é fácil se separar, o que é bom. Mas isso não nos ajuda a lidar melhor com a vida amorosa".

A impressão que tenho do mundo atual é que só tem valor aquilo que é surreal e isso se encaixa na busca por um relacionamento extraordinário, sempre maior e mais perfeito do que tudo o que já se viu e ouviu falar. 

E principalmente, na busca por um amor diferente e melhor do que aquele que já se tem. Não importa o quão bom é o relacionamento atual, afinal, existe a ilusão de que sempre haverá um melhor. Com isso muitos perdem a chance de continuar vivendo o amor de verdade que é amigo, que ri, chora, compartilha, cuida, envelhece junto, permanece apesar das tempestades.

Quer maior excitação do que a intimidade? Eu desconheço. Mas a grande maioria quer novidade, paixão, coração disparado o tempo todo, mesmo com toda a efemeridade que isso implica. Ou alguém que já passou dos 18 anos acredita que algo desse tipo dura mais do que três meses? E isso, quando dura...Infelizmente há muita gente com síndrome de Peter Pan que acredita e sai em busca, e, claro, em pouco tempo parte a própria cara e os sonhos de muitas outras pessoas.

Como diz a autora existe a obsessão moderna pela felicidade, a busca por um amor extraordinário. Parece obrigatório ser feliz o tempo todo. E alguém é? Não! Claro que não! Então o que fazer? Bom, divorciar para ir em busca de um amor que não seja tão simples, ordinário e cotidiano parece que tem sido uma boa saída... É uma pena o que tudo isso causa dentro de uma família... 

Todo mundo sabe o quanto defendo a felicidade a dois, mas isso não pode ser um jogo de xadrez onde se derruba um para colocar outro no lugar o tempo todo, em busca de alcançar o pote de ouro que fica lá no fim do arco íris. (Não bastasse a lindeza do arco íris, ainda queremos o pote de ouro). A vida não é fantasia. Ninguém jamais será feliz o tempo todo. Relacionamento é mantido antes de tudo pela dedicação e pela vontade de estar junto, sustentado antes de tudo, é claro, pelos ingredientes básicos - amor, respeito e lealdade. 

"O negócio é a pessoa encontrar a forma mais rápida de satisfazer seus desejos. O sexo é uma mercadoria mais fácil de achar do que o amor." E assim, com essa coisificação do sexo, esse prazer imediato onde basta um olhar e... cama,  o amor perde a chance de "dar as caras". Assim, todos perdem.  E o mundo vai ficando pior, as relações levianas, as pessoas solitárias.

Quem tem a felicidade de ter um amor ordinário que seja sábio ao cultivá-lo.  Na busca ilusória por alguém que lhe garanta fogos de artifícios pipocando no céu todas as noites, muitos jogam fora belas noites de lua cheia que poderiam ser olhada  a dois.

Finalizando, com a autora - hoje, trocam o eterno pelo intenso.

Vale à pena pensar sobre isso.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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14/10/2013 às 22h07m


Amor

O que é amar além de verbo transitivo direto (indireto na poesia de Mário de Andrade)? O mundo inteiro a seus pés. Séculos tentando definir o indefinível, intocável, inefável - sufixos "in", pois é sempre mais fácil negar o que não se consegue explicar.  Milhões de poetas, conhecidos ou não, falam sobre ele. E quem é ele? Para Camões, lá no séc. XVI,  é um fogo que arde sem se ver.  

Encontro-o na pergunta feita por Santo Agostinho "O que é que amo quanto te amo?"

Nasci para ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa...

O poema de Fernando Pessoa traduz o que sinto (mas não explico) - o amor nasce em um tempo anterior ao encontro. O ser humano segue sua trajetória esperando o momento de dar vida ao que, mesmo inerte, sempre o habitou sendo o doce objetivo de sua jornada (mesmos para os mais endurecidos). E aí explode esse "acontecer a dois" – com a inevitável ilusão de que a partir desse encontro, nasce a possibilidade de expurgar as próprias imperfeições e curar as feridas. Faz parte.

Em minhas décadas de abstrações buscando formar a minha concepção de amor, tive e tenho fases - às vezes estou para Shakespeare in Love, noutras estou para Nietzsche.

Acho delicioso acreditar nesse amor romântico regado a vinho e poesia. Aquele reconhecimento profundo do "a gente olha e se entende", aquela sincronicidade indispensável, tão bem retratada por um amigo - "língua solta, cérebro rápido e cuspir emoção é o grande lance, faz com que pensemos juntos... E não um de cada vez, e este é grande barato do diálogo verdadeiro". Amar humaniza as expectativas.

A vida fica mais pesada quando deixamos de sonhar com esse amor indelével. 

Mas e quando um dos dois é invadido por um choque de realidade e percebe que aquela cumplicidade só existia na imaginação, que a relação tão especial, era mentira, que os projetos eram falsos, que aquilo que os sustentava era uma camada fina que escondia a escuridão que não se queria ver?  

Momento do fim, onde você deseja não ter conhecido o amor, para não ter que acolher essa dor. Momento onde coisas comuns, como tirar um porta-retrato da estante, torna-se punhal envenenando as cenas do que se viveu e destruindo o que ainda se esperava viver. 

O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer. A barra é pesada.

O verdadeiro amor é suicida como diz Ferreira Goulart? Às vezes acho que sim... Parece que tem prazo de validade. Para proteger-se dessa dor, há de privar-se da delícia de viver o amor. 

Vale à pena, ou vale o risco?

Também não sei dizer. Assim, vou de Vinícius de Morais, acreditando que seja infinito enquanto dure.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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07/10/2013 às 21h43m


Ciúmes

Ciúme é um tema recorrente nos relacionamentos desde os primórdios da humanidade, tendo destaque entre filósofos de todos os séculos, e continua existindo "atavicamente" e sem nenhum tipo de evolução, que não a teórica, em pleno século XXI.

Na peça Otelo, de Shakespeare, há a clássica fala de Iago:

"Oh, tende cuidado com o ciúme. É um monstro de olhos verdes, que zomba da carne de que se alimenta".

Seria ele inerente aos seres humanos, desde a época em que os homens da caverna faziam uso desse sentimento para proteger sua tribo?  Se assim fosse, carregaríamos um sentimento instintivo, remanescente de um período humano praticamente irracional. Revendo... Se racionalidade não é lá o grande destaque em relacionamentos amorosos, pelo menos é preciso um esforço coordenado nesse sentido. Porque destruir a possibilidade de relações saudáveis, chegando ao cúmulo de destruir vidas em nome do ciúme, é inadmissível.

"Hoje pela primeira vez tive ciúmes dos olhos do meu primo". 

"Porque eles viram-te e eu não te vi".

Confesso-me totalmente parcial quando se trata de Fernando Pessoa, mas essa doçura com que ele se refere ao ciúme está valendo... Sentimento gostoso destinado a quem se quer sempre ao lado para dividir a vida. Ciúme dos olhos que a olham, dos sorrisos que lhe dirigem, das mãos que lhe estendem. Existe esse ciúme que é cuidado e não posse. 

Dizem que sentimentos irracionais fazem sentido quando entendemos o que está por trás deles. O que vemos por trás do ciúme nos relacionamentos amorosos é o medo, real ou irreal, vergonha de se perder o amor da pessoa amada, falta de confiança no outro e/ou em si mesmo. Esses sentimentos podem estar embasados em alguma coisa real, como já ter sido traído por exemplo. Mas racionalmente, nada justifica esse sentimento. Pois senti-lo, não modifica os fatos - se tiver que ser traído, será, se tiver que ser abandonado, será, se tiver que ser trocado pelo seu melhor amigo, será. Sentir ciúme não tem utilidade nenhuma. Não ajuda, não previne, não defende, e, quando é exagerado, pode tornar-se patológico e transformar-se em uma obsessão.

Eu acreditei que não fosse ciumenta, mas talvez seja. Ainda assim não me conformo em sê-lo, pelo simples fato de eu ser tão consciente acerca da total incoerência desse sentimento. É a irracionalidade do amor.

Diz Rubem Alves que "O ciúme é aquela dor que dá quando percebemos que a pessoa amada pode ser feliz sem a gente". Enfim, ciúme resume-se em desejar a posse absoluta do outro. Não basta se saber amado. Busca-se a garantia ilusória de que aquela pessoa nasceu a partir do momento em que te conheceu - não tem passado para recordar, e nem futuro para almejar, que não a sentença de viver com você e para você. 

Como a vida nunca nos dá garantia, tudo isso é absolutamente em vão.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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