10/06/2013 às 19h24m


Só por hoje

Nas minhas incansáveis buscas deparei-me alguns anos atrás com o lema "Só por hoje", das irmandades anônimas. Nunca tive o prazer de presenciar uma reunião dessas. Estranho? Prazer sim, pois somos todos dependentes. E só por esse motivo essa frase exerce imenso poder em cada um de nós. 

Essa frase liberta. 

Uma das poucas verdades inquestionáveis na qual eu me apoio é a que diz que o único tempo que de fato existe é o agora, pois o ontem já se foi e o amanhã ainda será. Acho que ninguém questiona isso.  

Perder vida remoendo o passado e planejando o futuro é um vício da humanidade que tem como consequência nos cegar.

Perdemos aquilo que está no palco, em cena, tentando adivinhar o que ainda está nas coxias. Deixamos de aplaudir o que acontece. Desperdiçamos chances, pessoas, sentimentos, situações. 

Sei que é preciso um excesso de racionalidade para repensar o tempo. A preocupação em planejar o futuro é viciante. Mas adianta de que? E se você não estiver aqui amanhã? "Mas penso no futuro dos meus filhos" E se eles não estiverem aqui amanhã? 

Tudo é em vão... Não há estabilidade que possa garantir o futuro que por si só é e sempre será uma grande incógnita. Essa incerteza adoece o ser humano que desesperado busca estabilidade. Que estabilidade se hoje você está aqui, mas não há como saber se amanhã estará? 

Viver bem pede sabedoria e desapego. 

O tempo é agora. 

Só por hoje faça o que é impossível prometer fazer amanhã – viver o hoje! 


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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03/06/2013 às 17h54m - Atualizado 04/06/2013 às 09h33m


Um sentimento nobre

Tudo começa pequeno. Só cresce se permitirmos. Quase tudo.
A amizade brota. 
Tem contornos de leveza. Um descompromisso com qualquer coisa que não a liberdade.
Nunca vi manual de auto-ajuda para amigos. É uma relação onde não se normatiza. 
É um sentimento que se difere pela resistência. 
Atravessa impune à falta de tempo.
Sobrevive forte à distância. 
Dispensa cobranças de qualquer natureza.
Amigos não traem porque não pactuam fidelidade. 
São absolutamente livres. E leais. Sempre. 
Adequa-se à sinceridade. Não há julgamento. Nem sentença. 
Não exerce poder sobre o outro. Apenas seguem ao lado.
Não temem perder-se. Porque não se possuem. 
Têm o dom inexplicável de compartilhar mesmo quando estão de lados opostos.
As diferenças não fazem diferença. Continuam semelhantes apesar de...
Única relação onde os opostos podem se atrair sem complicação.
É mais instinto que razão. 
É um vínculo de forças. É um reconhecer-se na escuridão.
Sonham juntos, até quando um mantém a cabeça na lua e o outro os pés na bolsa de valores de Boston.
Quando o silêncio toma conta de um, o outro não fantasia. 
Não há intenções, nem projetos, não há planos maiores do que uma viagem de carnaval. Não há promessas, nem dívidas. 
É uma sutileza de sentimentos que qualquer relação aspira. Não se explica.
Ama-se. Mas sem os grilhões do amor.



Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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28/05/2013 às 09h11m - Atualizado 28/05/2013 às 17h22m


Solidão não é estar só

Solidão é falta e não ausência. Pois há presença na ausência.

A pior solidão é sentida quando se está acompanhado. Ter com quem conversar e viver no silêncio. Ter com quem chorar, mas entender que só será, mais ou menos bem-vinda, se estiver sorrindo. Ter com quer sair, mas preferir ficar. Ter com quem dividir a vida porque, por exemplo, se casou, e ser apresentada ao imenso abismo que há entre teoria e prática. 

Enfim, teoricamente não há solidão quando se tem alguém ao lado. Mas quando esse alguém é apenas uma presença, essa certeza vira pó. Ter uma pessoa ao lado jamais foi sinônimo de companhia. 

Não acredito muito na solidão como uma escolha de vida. Já dizia Aristóteles que Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus.

Solidão a dois é a mais difícil entre as solidões, é quando se descobre, contrário do que disse no começo, que há ausência na presença. Mas também é um rico momento para se despertar e compreender que antes só do que mal acompanhado.

Quem experimenta o prazer de uma companhia, seja de amigos, filhos ou de um amor, sabe o gosto de dividir um olhar, um poema, uma paisagem. As relações precisam ser plenas. Relacionamento é via de mão dupla, seja ele de que natureza for. Se você doa sem receber nada em troca, a fonte seca. É preciso reconhecer se há, presença ou companhia ao seu lado.

O filósofo Nietzsche já sabia disso no século XIX quando escreveu - Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia.

Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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21/05/2013 às 08h10m


Possuímos muito de nada...

Schopenhauer faz uma referência curiosa em relação ao verdadeiro "eu" quando diz: Seja você mesmo! Você não é na verdade nada do que faz, pensa e deseja agora.

Esse olhar lançado à parte daquilo que representamos, proporcionando o desapego da certeza de que somos isso que mostramos, esse questionamento dos valores aceitos e da força social, é exatamente o que nos guia ao caminho de volta para dentro. Lá, temos a chance do reencontro com uma essência que geralmente é abandonada para que possamos acatar as regras e sermos socialmente aceitos nesse mundo normatizado, robotizado, dogmatizado.

Esse processo de retorno se dá quase sempre quando as exigências sociais vemao encontro de nossos anseios pessoais. Nesse momento conectamos com uma potência que sempre morou em nós, mas precisou ser deixada em um canto qualquer para que pudéssemos seguir "obedientes" à moral dominante. Potência acionada - acabou o sossego... Somos instados a abandonar nossa zona de conforto, e somos submergidos pela dúvida sobre ser ou não isso mesmo o que queremos. 

Essa força questionadora é Deus para uns, pois liberta, mas é o demônio para aqueles que não conseguem se libertar, pois quando a consciência é desperta, fica ainda mais difícil retornar à corrente. Não retornar é seguir quase sozinho, pois o crescimento pessoal submete-se ao crescimento econômico. E é para lá que a grande maioria segue.

Certa vez, li que a sociedade encaminha o indivíduo, por uma série de estímulos e vantagens, para uma maneira de pensar e agir que, quando se torna hábito vigora nele e acima dele, trazendo riquezas e honras, mas também exige tanto que priva-lhe o sentido da sensibilidade necessária para aproveitar essas riquezas e honras. 

O mundo tornou-se uma perigosa armadilha para nos apartar de nós mesmos. Estamos aleijados, marionetes da mídia, nossa tendência é a da massa, possuímos muito de nada...

Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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07/05/2013 às 08h30m - Atualizado 08/05/2013 às 18h05m


Inteligente é perdoar

Não existe tempo para se perdoar. Contando que a capacidade de perdão é um grande libertador, para que adiar?  É um ato que liberta quem é perdoado e ainda dá asas para o infinito a quem perdoa. Nada mais gratificante do que essa abolição.
As argolas que compõe a amarra dos sentimentos ruins são de ferro e formam elos poderosos que aprisionam o fluxo da vida, dos sonhos, do futuro dos envolvidos.
Sempre relacionei o perdão a um ato de bondade, mas hoje o reconheço como um ato de inteligência. É preciso perdoar. Não é fácil, mas é necessário e benévolo para quem o pratica. Se o bem acontece primeiro a quem o concede, qual a justificativa, então, para não fazer? 
No amor, ser traído pelo parceiro, por exemplo, é motivação para um ódio sem limites. Compreensível.Venha o que vier o amor, naquele momento, se converge nesse sentimento limitador - o ódio. Mas com o sábio tempo as coisas vão se encaixando, os sentimentos ruins vão perdendo espaço e uma nova vida (seja ainda ao lado do mesmo amor, de outro amor ou sozinha) vai se desenhando, e você tomando consciência que a raiva só escraviza ao passado e impossibilitando novas energias futuras. Urge ficar livre dele. Claro que não é fácil.
Vale perdoar mesmo sem esquecer? Vale. Se você dá o comando para o perdão, mesmo não conseguindo esquecer (ainda) o fato que "detonou" aquela situação, você já inicia sua libertação e, consequentemente, a do outro.
Perdão precisa ser exercitado. 
Tem uma parte no livro A Cabana, onde o pai está prestes a encontrar o corpo da filha, assassinada brutalmente e, enquanto caminha em meio à mata nessa procura desesperada, deixando claro ao leitor o sofrimento que brota de suas entranhas, ele vai afirmando para si mesmo: eu perdoo, eu perdoo, eu perdoo... E, mesmo ainda não conseguindo perdoar, ao repetir esse mantra, vai limpando e abrindo caminho... E, então, em um momento sagrado, o perdão se estabelece.
E nesse instante você liberta, ao mesmo tempo em que fica livre.

Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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13/04/2013 às 16h16m - Atualizado 25/04/2013 às 11h31m


Fins e começos

No início, o primeiro olhar, a busca por seduzir melhor, portar-se da melhor forma no primeiro encontro, afinal, impressionar é a palavra de ordem. E a primeira noite? Esmerada preparação para que tudo saia, senão perfeito, ao menos inesquecível.

Tudo dando certo, partimos para outros planos. Os melhores projetos de um futuro a dois - o melhor apartamento que possa se encaixar no orçamento, um casamento com direito a banda de música, e a melhor viagem de lua de mel. Filhos daqui a dois anos.

Quem sabe surge ali "o casal", inaugurando a constantemente inaugurada esperança de um "felizes para sempre", ou indo menos de conto de fadas e mais de conto do vigário, um "até que a morte os separe".

Mas... Um dia o sol não nasce. Algo não dá mais certo. Sem dramas, vítimas ou algozes. Certezas não existem mesmo, e empenho não é garantia de final feliz. Esvai-se o antagonismo naturalmente contido entre fim e começo.  E o começo está em convergência com o fim. Isso mesmo. Aquela dedicação antes usada para fazer o melhor no início, passa a ser usada (ou deveria passar a ser usada) para encontrar uma forma de fazer melhor o final - como se divorciar melhor, como se relacionar com o caos sem perder o rumo, lidar melhor com o desencontro, manter a sobriedade no momento da decepção, do abandono, da traição, do sofrimento, não deixar que as esperanças virem pó mediante aquele momento de sonhos desfeitos, esforçar-se para jamais maldizer as relações em geral, aprender que falar daquele com quem se dividiu a vida por algum tempo é vil, principalmente se for com os filhos, sempre melhor esperar a raiva passar, porque ela vai passar.

Enfim, se fins estão tão freqüentes quanto começos, dizendo mais subjetivamente, se inícios guardam invariavelmente a potência do fim, é inteligente buscar não só iniciar da melhor maneira um relacionamento, mas também preocupar em desenvolver recursos internos para terminar da melhor maneira. Quem sabe se o destino vai pregar essa peça, digamos, nada traiçoeira? Afinal a vida não dá garantias a ninguém.

Início e fim são dois lados da mesma moeda, e para virar de lado, às vezes, basta muito menos que um vento. Basta um sopro. Melhor então, estar sempre preparado.


Autor: Marcela Gonçalves de Sousa

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